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Níveis Neurológicos E A Diferença Entre Ser e Estar

Aprenda a identificar as questões reais em sua vida que impedem o seu crescimento, usando níveis neurológicos e a PNL.

Antes de entrar no assunto propriamente dito, permitam-me abordar à priore a fundamentação teórica dos meus argumentos. Peço um pouco de paciência e dedicação, pois a informação aqui presente tem a tendência de mudar vidas.

Níveis Neurológicos

Um dos maiores presentes que a programação neuro linguística (PNL) nos deu são os níveis neurológicos (ou, do inglês, Neuro-Logical Levels), onde recebemos, armazenamos, processamos e aprendemos o mundo que nos cerca e as inter-relações entre o que captamos.

Níveis neurológicos (Robert Dilts) ao lado de níveis lógicos (Gregory Bateson)
Níveis neurológicos (Robert Dilts) ao lado de níveis lógicos (Gregory Bateson)

Criado na década de cinquenta por Gregory Bateson e trazido para a PNL na década de 80 por Robert Dilts, inspirado após uma discussão sobre o trabalho de Bateson, com um dos participantes de seus cursos, eles estabelecem um racional que descreve como os processos mentais se relacionam de forma hierárquica e, de uma forma simplificada, como aprendemos o que chega até nós pelos nossos canais representacionais (Visão, Audição e Cinestesia – este último contendo tato, olfato e sabor) e, partir daí, fazemos novas e mais profundas associações.

Para entender melhor o conceito, parta do princípio que cada nível mais elevado contém os níveis abaixo hierarquicamente, como as camadas de uma cebola. De outra forma, cada ideia pode ser (e é!) armazenada em níveis distintos simultaneamente, mas não necessariamente em todos. Uma lâmpada incandescente por exemplo, produz luz e calor (nível 1). A ideia da presença ou ausência da luz produzida por ela pode provocar um comportamento (camada 2 – evitar o incômodo de olhar diretamente para ela ou o cuidado ao se movimentar na escuridão). A estratégia de não tocar nela ou não se movimentar no escuro para evitar lesões vem do nível 3 e a eventual crença para alguns de que a luz está relacionada à positividade vem da camada 4 (crenças e valores).

De acordo com o trabalho original de Bateson, a função de cada nível é sintetizar e organizar as informações dos níveis abaixo. Expandindo este conceito, uma mudança em um nível mais profundo necessariamente irradia e gera mudanças nos níveis abaixo. Já uma mudança em um nível mais superficial ou baixo pode, mas não necessariamente, provocar mudanças em níveis superiores.

Ainda, de acordo com ele:

Nível 0 de Aprendizado – neste nível, a informação está apenas armazenada, e não provoca mudanças ou recebe correções. Diante de uma situação, agimos conforme já determinado pelo que sabemos.

Nível 1 de Aprendizado – aqui, frente a uma situação conhecida, detectamos “erros” e realizamos pequenas correções incrementais nas escolhas, diante de um conjunto de alternativas.

Nível 2 de Aprendizado – a partir deste nível há uma quebra no processo de tomada de decisão do nível anterior. São vislumbradas novas escolhas, opções e comportamentos, frequentemente provocando mudanças na política, valores e prioridades.

Nível 3 de Aprendizado – neste nível, há mudança evolucionária. Ele é caracterizado por mudanças que vão além da identidade do indivíduo.

Nível 4 de Aprendizado – colocado como nível de mudança revolucionária, envolve o despertar para uma realidade totalmente diferente, única e transformadora, passando a operar e um universo totalmente novo de possibilidades.

De acordo com os relatos de Robert Dilts, ele tomou o modelo de Bateson e tornou-o mais prático e aplicável. Permitam-me fazer um comentário: depois de estudar um pouco o tema e procurar referências mais sólidas sobre o assunto, nada é tão completo e preciso como o próprio texto original de Dilts. Inclusive, os exemplos que ele dá são sensacionais (* mais sobre essa questão ao final do texto).

Níveis neurológicos (de ter e estar à ser)
Níveis neurológicos (de ter e estar à ser)

No seu modelo, existe uma relação direta e profunda com o ser, com quem somos e nossas relações com o que nos cerca. Perceba que, quanto mais nos aprofundamos nos níveis, mais profundas ficam as implicações do aprendizado; maiores suas influências sobre o todo e, principalmente, mais inconsciente se torna a razão por trás da ação e… mais migramos do “TER” e “ESTAR” para o “SER”.

Nível 1 – Ambiente

No nível mais básico, estão primariamente as percepções do ambiente que nos cerca. Coisas que estão por traz do “quem?” externo, “quando?” e “onde?” como temperatura, luminosidade, tamanho, estrutura, cheiro, sabor e tudo aquilo que está ligado a fatores ambientais.

Nível 2 – Comportamentos

Neste nível, encontramos nossas ações e reações. O que tenho feito? Como tenho me comportado? Como reajo a mudanças no ambiente que me cerca?

Nível 3 – Capacidades

Aqui estão relacionadas os mapas mentais e estratégias que as pessoas desenvolvem para guiar suas ações. É o “como?” por trás de nossas ações e englobam tudo aquilo responsável pelo “como” se realiza algo.

Nível 4 – Crenças e Valores

No quarto nível estão presentes nossos julgamentos e avaliações a respeito de nós, dos outros e do mundo ao nosso redor. De forma paralela, é aquilo que nos motiva e nos dá “permissão” para seguir em frente e está por trás do “por quê?”. Está ligado ao que consideramos “certo” (mesmo sob a luz da subjetividade do ser humano e da PNL sobre o que é de fato “certo”). É aquilo que faz nosso sangue “ferver” ou ficarmos “arrepiados”.

Nível 5 – Identidade

No nível da identidade encontrarmos nossos múltiplos “eus”. O “Eu” que vai à escola, o que trabalha, o que diz não ao filho, o que diz sim ao chefe, o que é amigo, marido, mãe. É o senso que representa quem somos diante de cada situação. Responde a pergunta “quem?” interna.

Nível 6 – Espiritual

Confundido muitas vezes com espiritualidade, na verdade traduz o nível de pertencimento do “eu” nos diversos sistemas aos quais estamos inseridos, como família, grupo de amigos, trabalho ou escola. É o senso de pertencimento a algo maior e que vai além de nós mesmos. Como disse Bateson, é o senso de conexão entre todos em um todo maior. Está relacionado intimamente à nossa missão, propósito em vida e responde às perguntas “para quem?” e “para quê?”.

A inspiração que levou Dilts a idealizar os níveis é excelente para exemplificar a sua aplicação. Veja abaixo e tente você mesmo imaginar uma pessoa dizendo cada frase abaixo para você:

  1. Aquele objeto em seu ambiente é perigoso.
  2. Suas ações naquele contexto particular foram perigosas.
  3. A sua falta de realizar julgamentos efetivos é perigosa.
  4. Suas crenças e valores são perigosos.
  5. Você é uma pessoa perigosa.
  6. Sua família é perigosa.

Ainda…

  1. O ambiente que o cerca é [estúpido/feio/excepcional/bonito]
  2. A forma com a qual você se comportou naquela situação em particular foi [estúpida/feia/excepcional/bonita]
  3. Você realmente tem a capacidade de ser [estúpido/feio/excepcional/bonito]
  4. O que você acredita e dá valor é [estúpido/feio/excepcional/bonito]
  5. Você é [estúpido/feio/excepcional/bonito]
  6. Seus familiares são [estúpidos/feios/excepcionais/bonitos]

Veja que a avaliação (perigoso ou [estúpido/feio/excepcional/bonito]) em cada frase é a mesma. O que muda é o aspecto da pessoa para o qual a frase se refere:

  1. Ambiente
  2. Comportamento
  3. Capacidade
  4. Crenças e Valores
  5. Identidade
  6. Sistemas (no caso, familiar)

Perceba como as implicações da afirmação crescem em profundidade, importância, impacto e mudam completamente de significado, assim como o escalar de uma montanha, processo que se torna cada vez mais desafiante à medida em que se avança.

Para alguns, uma alternativa válida para entender a questão é enxergar a proposição de forma multidimensional.

Implicações

Exemplo – Obesidade

Permitam-me começar por um assunto polêmico para demonstrar como os níveis neurológicos são importantes e fundamentais no nosso dia-a-dia.

Tomemos por exemplo uma pessoa obesa, que deseja intensamente perder peso e repare nas proposições a seguir. Algumas soarão estranhamente conhecidas.

Ao iniciar a conversa com o indivíduo acima do peso, é muito comum identificarmos em um primeiro plano os fatores ambientais. A primeira informação que aparece é a justificativa de que o excesso de peso está ligado à disponibilidade da comida ou a farta oferta da fast food em determinada região frequentada.

Ao investigar e realizar as perguntas certas, descobrimos cada vez mais. Começam a aparecer os fatores comportamentais, como a associação do excesso de peso à compulsividade, stress e condições ligadas ao comportamento ou até mesmo “odiar regime” ou odiar “ir à academia”.

Em um terceiro plano, chega-se ao nível de capacidades e habilidades… Aqui, temos a comida como estratégia, talvez como uma resposta à uma condição de ansiedade. “Como porque me acalma” ou “como por estratégia de inclusão social”.

Quanto mais profundo cavamos, temos a possibilidade de talvez descobrir as reais motivações por trás do excesso de peso. Ao chegar no nível das crenças e valores, normalmente nos deparamos com coisas como “fui ensinado que deixar comida no prato é falta de educação” ou “como porque, quando criança, apanhava se deixasse comida no prato”

Quando chegamos no nível da identidade, encontramos colocações como “ouvi minha infância inteira que bebê saudável é bebê gordinho… gente saudável é gente gordinha”. “Eu sempre fui gordo”.

Por fim, imagine essa vítima da obesidade inserida em um contexto familiar onde todos tem excesso de peso (rapport de comportamento fortíssimo). Como se não bastasse, as ações no intuito de perder peso são minadas ao tentar trocar a alimentação da casa e sofrer uma resistência generalizada ou, ainda, tentar ir para a academia e o marido/esposa dizer que “você só pensa em academia e não tem mais tempo” pra ele/ela.

Srs., essa é a realidade de muitos. Foi minha realidade durante anos (leia mais sobre isso clicando aqui). Cheguei a 140Kg e só emagreci de forma sustentável quando resolvi minhas questões nos níveis adequados.

Me digam: se a causa da obesidade do indivíduo está enraizada até o nível mais profundo, vocês acham que uma mudança em um nível superficial surtirá o efeito desejado?

Realizar uma cirurgia para redução de peso surtirá efeito de longo prazo sem que as múltiplas razões distribuídas nos mais diversos níveis sejam apropriadamente tratadas?

Provavelmente não.

Exemplo – Feedback

Com feedback, não é diferente. Alguns afirmam que dar feedback para as pessoas é uma arte. Admito que há um sem número de técnicas para tal, sem dúvida. Mas talvez o que você não saiba é que a mais utilizada de todas é totalmente embasada em níveis neurológicos e PNL.

Instintivamente, damos feedback dos quatro primeiros níveis (ambiente, comportamento, capacidade ou crença) como identidade. Em outras palavras, transformamos o “estar” em “SER”. Transformamos o estado atual do foco do feedback em sua identidade.

Dando um exemplo prático da situação acima, pense naquele seu funcionário que tem chegado atrasado. Você chama ele para conversar e diz que ele é preguiçoso ou que não é comprometido e precisa melhorar.

Novamente, pense no mesmo funcionário e, ao invés de dizer que ele é preguiçoso ou não comprometido, você diz que ele é uma ótima pessoa (reforço positivo na identidade) e que está, desde a data X, deixando de cumprir o horário (relegando ao estado momentâneo do indivíduo o foco da crítica)… fechando com uma pergunta sobre como pode ajudá-lo.

Qual das duas ações provavelmente terá o efeito desejado? Uma solicitação de mudança de identidade ou uma solicitação de mudança de um estado passageiro?

Exemplo – Saúde Financeira

Permita-me meu caro leitor encerrar dando o exemplo da saúde financeira (ou ausência dela), inspirado por uma apresentação que assisti dos fantásticos Cristina e Carlos Vilela.

Muitos reclamam que não tem dinheiro, quando, na verdade, não estão preparados para tê-lo. Veja abaixo se você se identifica com alguma dessas situações:

Você não consegue segurar o dinheiro dentro da carteira. Diante das tentações dos outlets e shoppings da vida, sempre sucumbe à tentação de uma promoção ou de uma vitrine atraente.

Você tem o comportamento de não poupar. Seu dinheiro chega na conta e some, ou porque existe um buraco negro de dívidas no banco ou porque em poucas horas ele é usado para pagar todas as suas contas que vencem perto umas das outras. Você vive no limite do que recebe e não há provisionamento algum para o dia de amanhã.

A sua estratégia em relação ao dinheiro consiste em pagar contas. Você foi educado a reconhecer o dinheiro como um mal necessário para sanar as dívidas que acumula e não há uma estratégia clara para o dia de amanhã.

No nível das crenças, você foi educado, desde pequeno, que dinheiro é sujo. Sua mãe obrigava-o a lavar as mãos tão logo entrasse em contato com moedas ou cédulas. Para você, dinheiro serve para pagar contas ou para comprar momentos de felicidade que são traduzidos em coisas materiais, festas, bebida ou diversão, de uma forma geral.

Você se considera incompetente em relação à questões financeiras. Olha para seu passado e se vê como incapaz de sair do abismo financeiro em que se encontra. Na verdade, você repente para si mesmo, com frequência, que “vai morrer pobre”.

Por último, sua família frequentemente diz que é melhor ser humilde do que rico, estabelecendo uma relação que não existe entre riqueza / prosperidade e ausência de humildade. No seu trabalho, você se considera injustiçado por dedicar tanto tempo à empresa e não ter retorno algum.

Pronto – a receita para manter-se na zona de conforto está dada – mudar qualquer um dos níveis em quaisquer dos exemplos passa a ser uma tarefa tão desafiante que se torna maior do que a sua força para mudar. Como, com um conjunto de comportamentos, crenças, identidade e sistemas como esses, o dinheiro chegará e ficará com você?

Identificar é o primeiro passo. Agir, o próximo.

Quantas pessoas você conhece que dizem (da boca pra fora) que amam mudanças e desafios mas, ao mesmo tempo, cultivam a zona de conforto afirmando que as condições do mercado não são favoráveis, que não tem tempo, não tem as habilidades, acreditam não serem capazes ou estão inseridos em um contexto social íntimo desfavorável, de amigos e parentes que sempre afirmam que não conseguem e que é melhor nem tentar?

Tente agora identificar a mudança que você deseja na sua vida e, em seguida, o nível em que a mudança é necessária. Defina, baseado no que descobrir, ações efetivas em cada nível (onde for necessário) para corrigir o seu caminho… E aja!

Certamente, já deixamos de agir não porque não há vontade para tal, mas porque simplesmente não sabemos por onde começar. Este primeiro passo tem a chance de mudar vidas. Espero, do fundo do coração, que esse texto lhe permita enxergar onde procurar, onde atuar e o quê, de fato, é necessário fazer.

 

 


(*) Faço referência explícita a Dilts e seus escritos porque encontrei dezenas (talvez centenas!) de textos alterados, deturpados e pseudo-científicos que são, no máximo, inspirados no trabalho dele. Muita coisa sequer menciona a origem. Outros adicionam informações compatíveis com seus argumentos, tentando vender programas de coaching ou cursos de PNL. Como tudo na Internet, é sempre uma estratégia interessante recorrer às fontes.

Depois de ler um pouco sobre o assunto, chego à conclusão que muitos profissionais hoje utilizam a PNL ativamente e não fazem referência à tecnologia apropriadamente, como é devido.

De fato, do que aprendi, os próprios “criadores” (Bandler e Grinder) não concordaram muito sobre a abordagem a tomar e deram um direcionamento comercial às descobertas que fizeram. Dilts, por outro lado, fez algo nobre na minha opinião: ampliou o estudo e abriu a informação para todos. Notadamente, tem feito isso até hoje.