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A Navalha de Hanlon

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Nem todo mundo está familiarizado com o conceito de “navalha” usado na filosofia.

Em termos gerais, “navalhas” são princípios ou guias para eliminar (cortar) explicações não tão plausíveis para um fenômeno.

Se você é fã de ficção científica e assistiu (ou leu) o fabuloso “Contato“, de Carl Sagan, deve lembrar da Navalha de Occam (Occam’s Razor) que, na obra, afirma que “a explicação mais simples normalmente é a correta”(*).

Semana passada, uma dessas orientações filosóficas me chamou a atenção. Trata-se da Navalha de Hanlon. Nela, o óbvio é exercido. Aquele óbvio que e tão óbvio que cega. Tão simples que assusta:

“Nunca atribua à malícia o que pode ser adequadamente explicado pela estupidez.”

Eu particularmente acredito que a grande maioria dos problemas da humanidade deve-se à falha na comunicação ou ao não entendimento do ponto de vista do próximo.

Quando partimos do princípio de que não existe uma mesma realidade compartilhada por todos os seres humanos e, de que de uma forma ou de outra, cada ser humano tem a sua própria realidade, sua representação do mundo, fica mais fácil de aceitar que a comunicação é a base para o entendimento ou a discórdia. Para a convivência sadia ou a disputa (não acredita? Leia isso).

A questão (que não ajuda) é que as pessoas estão tão bélicas que até mesmo perguntar para obter um melhor entendimento gera conflito. Você começa a questionar no intuito de compreender o que se deseja e seu interlocutor acha que há segundas intenções no questionamento.

Uma vez que esse texto tem a intenção de explorar a Navalha de Hanlon, você já deve ter sentido onde quero chegar.

Não estou sendo particularmente ingênuo. Estou, de fato, sendo prático.

Não mencionei também a Navalha de Occam à toa.

A razão por trás do meu argumento traz a simplicidade que consterna: não obstante ser a malícia fruto de pessoas com intenções usualmente obscuras, ela requer elaboração. Ela é complexa, pode envolver a mentira e toda uma série de artifícios, bem como planejamento que a sustente.

Caímos, pela falha em nos comunicar e pela incompetência em compreender a realidade subjetiva do ser humano, na armadilha de complicar tudo, adicionando maldade à equação.

E olha que nem cheguei a mencionar a estupidez. Mas convenhamos, esse é filho bastardo da ignorância. Nossa incapacidade em compreender e em nos comunicar de forma eficaz são parentes próximos, fazem parte da mesma família.

Ouso afirmar que as duas navalhas fazem parte do mesmo conjunto. Dada a natureza humana, afirmar que a estupidez (e variações dela) são a explicação mais plausível para muita coisa que julgamos ser maldade, nada mais é do que afirmar que essa É a explicação mais simples.

Meu querido leitor, sinto que a essa altura você deve estar se perguntando o quê me fez pensar na Navalha de Hanlon ou que situação inspirou essa linha de raciocínio.

Peço-lhe o perdão que é exigido pela ética em não revelar partes. A potencial sabedoria da generalização, nesse caso, trouxe-me lições importantes, entendimentos e mudanças de opinião acerca de situações e pessoas. Porque não dizer, ainda sem implicar alguém, trouxe aceitação e perdão, ao entender que a ignorância é a raiz de tanta coisa em nosso mundo… e não a maldade.

Assim como a ignorância é uma benção, há toda uma nação de pessoas que buscam ser abençoadas diariamente; fogem do conhecimento como quem foge da morte, uma fé em manter-se alheio, uma estratégia quase perfeita para que o seu contexto existencial seja facilmente justificado para si e para os sistemas aos quais pertence.

Talvez essa minha conclusão seja um traço do meu romantismo, um raio de esperança em usar a Navalha de Hanlon para justificar a existência, segundo Sartre, de alguns indivíduos. Particularmente não conseguiria viver sob um contexto desses. Mas como argumentei (e acredito), cada ser humano tem a sua realidade individual e a sua subjetividade protegida por suas convicções.

No fim do dia, elas quem determinam a sua realidade através de quem você é ao existir e, (porque não afirmar) através de suas ações. Se somos reflexos dessas ações, para muitos é o que há de mais confortável: entender o mundo da forma que agrada,  manter-se ignorante ou omisso diante das situações antiéticas, conflitantes e que incomodam para que a existência seja perfeitamente justificável.

No fim, estupidez é a palavra que define. Mais uma vez, não estou sendo ingênuo em achar que a maldade não existe. Ela existe sim, mas sua incidência é bem menor do que a nossa própria ignorância/incompetência nos leva a crer.

Agora, para dar um nó cego e contabilizar o custo das minhas ações, me respondam: estarei eu sendo estúpido, ignorante, conivente ou omisso, ao enxergar tudo isso e eventualmente decidir não agir?

 


(*) A Navalha de Occam não afirma explicitamente que a solução mais SIMPLES é a correta. Ela afirma que a explicação com menos “componentes” deve ser a correta. A diferença é sutil, mas importante de se registrar.

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