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A Importância dos Nossos Valores

Ao longo da nossa vida, há algo por trás das nossas ações que norteiam as decisões que as precedem. Esse mesmo algo é responsável por orientar nossas opiniões e decisões que tomamos, também frente aos desafios e as ações dos outros.

A importância e a influência dos valores em nossas vidas é indiscutível. Mas e se eu disser a você que a grande maioria das pessoas não sabe quais são os seus e age puramente por instinto?

Quaisquer situações que demandem decisões são guiadas por eles; de fato, posso afirmar que influenciam nossos pensamentos, sentimentos e ações em cascata, tem importância gigantesca em nossa existência e são frequentemente negligenciados.

  • Você já se deparou com uma situação onde agiu de uma forma mas não se sentiu bem, ficou em dúvida ou se questionou, percebendo “algo fora do lugar”?
  • Você já viu alguém falar ou agir e ficou com uma sensação estranha, como se algo fosse incompatível ou não se encaixasse?
  • Já se arrependeu de ter falado, feito ou achado algo, sem necessariamente saber o porquê?
  • Já foi rápido em julgar alguém, por quaisquer motivos?

Provavelmente houve uma incongruência entre os seus valores e o que aconteceu e, o fato de você ter se sentido assim, decerto indica que você não os conhece. A grande maioria não sabe sequer lidar com estes cenários.

Eu tenho uma explicação para isso: na sociedade moderna, somos usualmente levados pelas circunstâncias – a pensar, sentir e agir.

A maioria passa a vida sendo levada por essas circunstâncias. Vamos sendo empurrados pela vida numa louca perseguição dos objetivos dos outros e somente aceitamos.

Alguns terminam percebendo a importância dos seus valores e da qualidade de suas decisões cedo ou tarde e passam a respeitá-los.

Em um contexto pessoal(*), temos o nosso primeiro sistema familiar (pais, irmãos, tios, etc.), onde nos dizem o que fazer boa parte dos nossos primeiros 20 anos, talvez até 30. Convém observar que a construção de nossos valores sofre influência fundamental desse sistema que, de uma forma ou de outra, eventualmente os determina.

Caso a pessoa esteja em um contexto pessoal onde o primeiro sistema familiar não existe ou é substituído por outro sistema, os seus valores serão certamente influenciados de forma semelhante pelo contexto que substituí-lo.

Famílias em conflito tendem a ser naturais à ausência de valores claros. É muito importante registrar que valores diferentes entre pessoas não significa necessariamente que uma está certa e a outra errada: temos mais de um valor e a prioridade pode ser distinta.

Enquanto uma pessoa pode valorizar mais a família, outra pode ter uma perspectiva diferente e valorizar mais a sua liberdade. Isso, por si só, pode gerar uma divergência de pontos de vista – não significando que uma ou outra está certa ou errada.

Registre-se: temos a tendência de associar valores a uma questão de certo vs. errado, (o “meu certo” contra o “seu errado”). Para esclarecer essa questão, sugiro a leitura desse texto. Lembre-se: nós vivemos em um mundo de infinitas possibilidades. É plausível afirmar que temos infinitos “certos” para cada situação. Na dúvida? Respeito.

Já em um contexto profissional(*), geralmente começamos subordinados a uma hierarquia, que dita nossas ações por um bom tempo, até termos autonomia gerencial, estratégica ou empreendedora.

Enquanto essa autonomia não vem, nadamos conforme a maré e somos levados a realizar fatalmente os planos dos outros, o que é alinhado a valores alheios e não aos nossos. Claro, isso não significa que existe um conflito entre ambos. A questão é justamente procurar o alinhamento. Mais adiante.

A existência de valores claros na cultura de uma empresa é tão importante que pode ser a razão do seu sucesso ou da sua destruição. Corporações onde os valores são claros, respeitados e alinhados, tem mais estabilidade de longo prazo e sobrevivem às mais diversas crises, sendo normalmente empresas com décadas de existência.

Corporações sem valores claros demonstram um comportamento errático, altos e baixos, conflitos, falhas de comunicação e, comumente, pessoas trabalhando umas contra as outras sem perceber ou uma enorme incidência de retrabalho. Muito comum também é a presença de assédio moral.

Mesmo tendo alguém nos dizendo o que fazer, nossos valores terão uma pequena ou grande influência em nossas ações, dependendo da nossa consciência acerca deles.

É aí que chegamos ao cerne da questão:

O alinhamento entre valores e nossa existência é a chave!

Quando me refiro à existência, penso no existencialismo de Sartre: somos o que fazemos e, principalmente, somos o que fazemos com o que fazem com a gente.

Quando esse alinhamento não existe, toda uma série de consequências negativas vem à tona, desde o desmoronamento de relacionamentos, o baixo desempenho, o isolamento social, a depressão, e até o suicídio. Como esse tipo de relação não é claro, bem como quais são os valores que nos orientam, as pessoas vão levando suas vidas de forma medíocre ou sofrida sem saber porquê.

Para evitar uma situação dessas, você deve descobrir quais são. Observe, contudo, que evidenciá-los traz uma consequência: você provavelmente não conseguirá mais aceitar fazer algo que seja contrário a eles, principalmente aqueles que considerar inegociáveis.

Descobri-los pode ser mais simples do que parece e é um exercício de auto-conhecimento.

Tenha um pouco de paciência e esteja disposto a ser sincero com você durante todo o processo, mesmo descobrindo que tem agido, no seu dia-a-dia, aparentemente contra algum valor.

Esse é um ponto muito importante: durante o exercício, você pode terminar chegando à conclusão de que um valor é contrário a uma ação que desempenha de forma corriqueira e habitual, no ambiente pessoal ou profissional e isso certamente fará com que você passe a questionar a validade de suas ações, seu comportamento, as amizades e relações que tem e até o seu emprego.

Além disso, é certo que as circunstâncias da vida podem alterá-los – eventos traumáticos, marcantes, relacionamentos, experiências profundas ou emocionais de ato impacto, dentre outros fatores, podem fazer você considerar um valor novo ou alterar suas prioridades.

Pense neste processo como um investimento de médio a longo prazo. Pense numa descoberta, que lhe permitirá entender o que lhe faz bem ou mal. O que lhe traz felicidade e realização ou não.

O que fará a respeito, com esse conhecimento? É com você.

Primeiro Passo: O Universo

Sugiro que você pegue papel e caneta ou faça uma planilha no computador, colocando, durante alguns dias, tantos valores quantos considerar válidos.

Não estamos agora procurando quais são ou não os seus, ou qual a prioridade: apenas escreva. Gere um universo interessante de valores, como ética, liberdade, família, dignidade, lealdade, coragem, honestidade, segurança, sucesso, justiça, qualidade de vida, crescimento, amor, fidelidade, aceitação social, amizade, compaixão, contribuição, caridade, status, humor, prosperidade, dinheiro, poder…

Enfim, tantos quantos conseguir! Se possível, construa a lista tendo em mente as seguintes perguntas: “O que é importante para mim?” “O que é compatível com minhas necessidades?” “Tomo decisões considerando-o?”

Se a lista contém algum nome que você sente ser inadequado, faz você se sentir estranho ou gera rejeição, remova-o.

Segundo Passo: A Escolha

O objetivo aqui é diminuir o universo de nomes criado. Diante do conjunto de possibilidades, alguns você conseguirá eliminar de cara.

Outros você terá a reação oposta – provavelmente afirmará para si: “este não consigo viver sem“.

A ideia é restar apenas de dez a quinze opções.

Importante: NÃO monte uma lista dos valores que deseja ter, mas uma lista dos valores que você possui!

Para lhe ajudar a escolher, existem algumas técnicas.

A primeira delas é verificar os valores que despertam emoções e sentimentos.

A segunda é prestar atenção naqueles que “mexem” com você, meio que sem explicação.

A terceira e reparar nos valores que talvez tragam à tona um pouco de impulsividade.

Em todos os casos, pense nas situações do seu cotidiano e, ao verificar uma reação impulsiva, reconhecer uma emoção ou sentimento despertado, perceba qual valor, ou conjunto de valores, veio à mente involuntariamente.

Em quarto lugar, pense nos momentos em que se sentiu mais feliz, realizado e orgulhoso.

Em seguida, analise que valores estavam envolvidos nesses momentos e que podem até ter guiado você em cada um deles.

Não tente construir a lista rapidamente. Dê tempo para que as escolhas amadureçam por alguns dias, quem sabe uma semana: dê-se a liberdade de ir alterando à medida que vive a sua vida.

Recomendo uma semana por causa do ciclo natural relacionado: enfrentamos desafios distintos diariamente e o ciclo se repete mais ou menos a cada semana. Assim, você abrirá espaço para viver a maioria das situações “comuns” e verificar como reage.

Terceiro Passo: A Priorização

Novamente, existem algumas maneiras de realizar essa tarefa e priorizar a lista.

É bem provável que uma olhada já lhe permita decidir algum valor em favor de outro.

Compare dois dos valores e se pergunte: numa situação onde eu tenha que colocá-los à prova, qual prevaleceria? Escolha outro valor e compare novamente. Repita até começar a enxergar o que é prioridade.

Para auxiliar, escreva ao lado de cada valor a forma com a qual você exerce ele no seu dia-a-dia. Escreva também, se você souber, o sistema origem (família? Igreja? Escola? Trabalho? Time de futebol? etc.). O exercício de pensar sobre isso já lhe dará uma pista sobre quais valores são mais importantes.

Ordene visualmente da melhor forma que conseguir. Sugiro retornar à tarefa durante uma semana e em horários diferentes. Em alguns dias, é bem possível que a lista acabe ordenada.

Alguns tem tanta certeza dos seus valores quando os confronta que chegam à versão final da lista em poucos minutos (mas não fique triste se ficar em dúvida por um tempo! Neste caso, “o seu jeito é o jeito certo!”)

Atribuir valores numéricos absolutos a cada nome também ajuda. Você pode escolher uma escala de zero a cem e colocar esse peso ao lado do valor na planilha. Não tente racionalizar muito, pois estamos à procura da sua reação emocional ao valor e não de uma racionalização. Depois, é só ordenar a planilha do maior peso para o menor.

Quarto Passo: A Eliminação

É ótimo que tenha chegado até aqui!

Sinto dizer-lhe, contudo, que uma lista com quinze nomes é muito extensa (confesse, a sua tem quinze!).

A boa notícia é que o trabalho já foi feito: despreze os últimos sete valores. Isso mesmo! Aqueles que realmente tem influência na sua vida estão entre os quatro a oito iniciais. Recomendo focar nos cinco primeiros.

E Agora?

Com a lista construída em mente, passe a perceber as situações de sua vida que não são compatíveis e alinhadas com ela. Veja como ficou fácil entender cada situação que lhe incomoda, em maior ou menor grau! Você pode tomar a decisão de mudar o que lhe incomoda ou conviver com ela.

Permita-me adicionar, todavia, que se você está indo contra um valor inegociável (e é bem provável que a lista contenha vários deles), está também abrindo mão da sua felicidade… (talvez lá no fundo do seu ser, você sabe que é o caso).

Avalie igualmente as situações que são agradáveis: você notará que o alinhamento com a sua lista agora lhe é óbvio! Mais, a sua capacidade de tomar decisões que lhe levarão à sua realização e à felicidade acaba de ficar ordens de grandeza maior!

Se você chegou até aqui e realizou o processo, devo parabenizá-lo. Encarar esse desafio e tomar conhecimento dos nossos valores é, certamente, um ato de sabedoria… Mas antes de mais nada, exige coragem.

Deixar a vida nos levar é um comportamento equiparado a viver na zona de conforto. Não conhecer os valores que regem a nossa existência nada mais é do que dar manutenção a esse comportamento.

É muito difundida a ideia de que devemos viver em nossa zona de esforço e que viver na zona de conforto deve ser execrado – notório que viver na zona de conforto é condenado por coaches, palestrantes e tantos livros de desenvolvimento humano e pessoal quanto se pode ler.

Eu tenho uma visão distinta, apesar de, particularmente, acreditar que viver na zona de conforto é, no mínimo, um desperdício.

É necessário conhecer a si próprio e traçar um plano existencial. Um planejamento de vida e de como se deseja vivê-la. Eu não condeno quem deseja viver na sua zona de conforto ou trabalhar para chegar lá e pendurar as chuteiras. Pelo contrário, eu respeito essa decisão!

O que precisa ficar claro são as consequências disso, dessa atitude e comportamento. Não existe aprendizado ou evolução na zona de conforto. Não existe crescimento e, ouso afirmar que, em alguns casos, há a atrofia de certas qualidades humanas.

Não obstante, é um plano existencial válido e, aceitemos, desejado por mais pessoas do que se admite abertamente…

Se esse é o seu plano de vida, parabéns! É provável que você não traga muitas contribuições para a sociedade. Estando isso claro, devemos respeitar a individualidade de cada um e invadir menos os mapas alheios.

Se você fica incomodado de estar na sua zona de conforto e age ativamente para viver fora dela, aceitando mudanças, aprendendo sempre e procurando evoluir, parabéns! Ao conhecer os seus valores, você poderá planejar a sua vida, suas ações e sua existência sadiamente. Você tem coragem de se enfrentar, de mudar e se adaptar… Mesmo que doa…

Você segue em frente.


(*)Nota: alguns coaches e especialistas no tema preferem segregar valores pessoais de profissionais. Eu acredito que temos apenas um conjunto fundamental de valores.