Motivação Pessoal Vida em Geral

Aprendemos Mais Durante Nossos Maiores Desafios

Ao longo dos últimos 17 anos, depois de alguns momentos em depressão (e de ter escrito sobre isso), perguntam-me se eu aprendi algo com ela em si.

Sim, eu aprendi muito.

Na verdade, mudou-me com pessoa.

Posso até afirmar que a maior parte dos insights, da visão que tenho hoje e do que expresso nos meus textos é fruto do aprendizado iniciado 17 anos atrás.

Durante a primeira crise em 2001, eu aprendi que ela leva ao isolamento. Foi meu primeiro contato com a doença e terminei não extraindo desse fato em si nenhuma contra-medida útil entendendo que é necessário a ajuda de um profissional para sair da crise.

Se é possível sair de uma crise sem ajuda profissional eu francamente não sei. No meu caso, dificilmente conseguiria.

“Descobri que com a depressão, uma das coisas mais importantes que você pode perceber é que você não está sozinho.”
Dwayne “The Rock” Johnson

Logo no início, eu aprendi também que o autoconhecimento é fundamental. Saber separar o que é um sintoma da doença e o que não é. Isso permite procurar ajuda profissional cedo, o que provoca resultados precoces e uma recuperação mais rápida.

Já na segunda crise, em 2012, eu entendi que aumentar o contato social é uma medida efetiva contra a depressão. Ver gente, ir a lugares com pessoas, conversar, conviver e se relacionar, ajudam muito! Só o fato de você sair de casa e ir a algum lugar movimentado fará você se sentir melhor.

Estes dois pontos estão ligados à outra questão: negação. Existe uma parcela resistente de pessoas que não reconhece que precisa de ajuda e nunca de fato a procura, seja por preconceito, medo ou tabu que, convenhamos, não é infundado.

Contudo, ao negar sua condição, perde a oportunidade de aprender mais com isso. É claro que eu não recomendo passar por uma crise para saber como é, mas rejeitar o quadro só prolonga o sofrimento.

Por sinal, quando recebi alta, eu me conscientizei de que depressão tem cura.

Pasmem, muita gente que lida com a depressão convive com ela há dezenas de anos e continua achando que será obrigado a conviver com isso até o fim da vida.

Pasmem ainda mais, pois alguns me relataram que o profissional de saúde foi quem lhes disse que conviveriam com o mal sem data de validade. Se você se enquadra nessa situação, sugiro procurar outro profissional.

Todavia, o índice de recorrência é muito alto. Quase metade dos diagnosticados voltam a sofrer crises.

Tenha em mente que, após a alta, é necessário ter uma estratégia para que ela não retorne. Falei sobre isso em um texto anterior.

Dependendo do grau e profundidade da doença, ela é incapacitante. Existe uma relação direta entre quadros depressivos e ausência de criatividade (dentre outras coisas), culminando até na somatização, exemplificada com dores corporais e transtornos de ansiedade.

Por mais que você ame seu trabalho, desempenhá-lo será um desafio e tanto. De fato, sentirá uma limitação ao realizar tarefas complexas. É por isso que a ajuda profissional é tão importante para diminuir o tempo em que se fica nesse estágio.

“Depressão é a incapacidade de construir um futuro.”
Rollo May

Agora, permita-me colocar algo, para muitos, doloroso: nem todo mundo entende o que é depressão.

Como se não bastasse, pode ser alguém próximo, seu chefe ou justamente alguém que você gostaria que lhe ajudasse e compreendesse.

O fato infeliz é que a sociedade acha que depressão é apenas uma tristeza profunda. Outros acham que é uma característica de uma pessoa negativa ou falta de positividade. Por que não afirmar que alguns acham até ser invenção?

“Se você conhece alguém que está deprimido, por favor, resolva nunca perguntar por quê. A depressão não é uma resposta direta a uma situação ruim; a depressão apenas é, como o clima.”
Stephen Fry

Se você é amigo ou parente de uma pessoa com depressão, tente compreender o que se passa. Se for mãe ou pai, por um momento considere a possibilidade de ser co-responsável.

Às vezes, colocamos barras altas demais para nossos filhos ou os forçamos a ser do jeito que planejamos e, sinto colocar, a vida simplesmente não funciona assim, pelo menos não no aspecto de fazer a pessoa ser a melhor versão dela mesma. Compreensão, carinho e apoio são boas alternativas.

“(…) Ele estava nadando em um mar de expectativas de outras pessoas. Homens se afogaram em mares assim.”
Robert Jordan

Já a forma de diagnóstico, por ser muito abrangente, gera alguma controvérsia.

Existe uma lista de sintomas que, quando aparecem, em uma quantidade mínima e por um tempo determinado, indicam um provável quadro. Essa lista faz parte do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM-5), em sua 5.ª edição (quando da escrita deste texto), elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria, que é considerado um padrão respeitado para detectar quadros de depressão.

Sugiro dar uma olhada nessa página em busca das perguntas originais do DSM-5.

Existem também questionários online baseados no DSM-5 que podem facilitar o processo. Eles não substituem NÃO a atuação de um profissional e servem para ter uma ideia do seu momento, talvez encorajando-o a procurar ajuda, caso exista alguma dúvida:

Estes dois acima são quase idênticos e em inglês.

Os testes originais foram traduzidos e podem ser encontrados abaixo em português:

Particularmente, tive um sintoma que me chamou a atenção, sendo uma combinação de algumas das perguntas do DSM-5 (e relatado por muitos): o aparecimento de um descolamento frequente (diário) entre como eu me sentia e como me reportava ao mundo externo.

Na prática, significa enxergar dois de si: um, que representa como você se sente realmente e outro, como você diz estar para o mundo que o cerca. É normal respondermos que tudo está ótimo (eventualmente, mesmo não estando), quando alguém lhe pergunta como vai.

Isso não é falsidade ou atuação. É defesa.

Às vezes, os sintomas doem tanto que apenas responder a essa pergunta com o que se sente de fato é o suficiente para encarar a dor que pode estar momentaneamente sob controle. É como magoar um machucado profundo.

Quando isso se torna um hábito, sente ser desafiante responder ou fica aborrecido e incomodado com a resposta, certamente é um sinal de alerta, principalmente se isso está acontecendo há semanas.

“Não é sempre que se mede a tristeza pelas lágrimas. Às vezes, medimos pelo tamanho do sorriso social.”
Autor desconhecido

A depressão traz uma dor que varia muito de intensidade e duração. Para mim, a existência dessa dor diz muito. Eu acredito que a dor provoca mudança e passar por uma condição que gera uma dor absurda é um sinal incontestável da nossa existência gritando por mudança, como explorei neste texto anterior.

Este é um bom sinal e um bom conceito de se ter, pois significa que há saída, que há uma razão por trás desse sofrimento e que podemos efetivamente fazer algo.

Ainda, existe um excelente potencial de emergir dessa condição melhor do que antes.

Assim, a missão passa a ser descobrir o que precisa ser mudado. No meu caso, descobrir os meus valores e propósito ajudaram bastante.

Deixo uma mensagem para vocês que estão enfrentando esse desafio em suas vidas, direta ou indiretamente:

Quando passei a falar abertamente sobre a minha experiência, fui repreendido veementemente por muitos.

Alguns chegaram a me perguntar se eu estava louco de me expor. Estamos falando de mais de 20% das mulheres e 12% dos homens, uma porção indiscutivelmente importante da sociedade e impossível de ser ignorada.

A depressão é um tema associado a um forte tabu. Não falar a respeito apenas acentua esse tabu. Aumenta ainda mais a distância entre as pessoas, quando o que precisamos é justamente do contrário: acolhimento.

Esse texto e os demais que escrevi sobre o assunto são minha forma de trazer luz à questão e levar ajuda a quem precisa e se identifica.

Se você está vivendo este desafio, lembre-se: você não É não uma pessoa deprimida. Você ESTÁ momentaneamente enfrentando um estado de depressão que, como tudo na vida, passará. Você não tem culpa de estar enfrentando a depressão, não importa o motivo pelo qual tem a doença. Mas é inteiramente responsável sobre como reage a ela.

 

“Comece fazendo o que for necessário, depois faça o que for possível e, de repente, você estará fazendo o impossível.”
São Francisco de Assis

 


Recursos Adicionais:

  • Depressão – Chris Irons
  • A Sutil Arte de Ligar o Foda-se – Mark Manson(*)
  • Inteligência Emocional – Daniel Goleman

(*) Este livro em especial traz uma ótica da vida com a qual não compactuo. Particularmente acho o texto agressivo demais e muitas vezes negativo, trazendo uma visão limitante e focando na problemática e não nas possibilidades. Entretanto, ele possui alguns insights interessantes e muitos podem se identificar com ele.

Eu tenho uma teoria a respeito disso: quando estamos em dificuldades, tendemos a achar tudo uma porcaria e a usar uma linguagem muito semelhante. Entendo que pessoas nesse estado se identificarão com a linguagem e com as colocações e isso foi usado como estratégia para torná-lo um best-seller.

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