Resenhas de Livros

Resenha: A Sutil Arte de Ligar o Foda-se

A Sutil Arte de Ligar o Foda-se
Mark Manson, 2016
ISBN 978-85-510-0249-0
Edição Brasileira, 2017. Tradução: Joana Faro

Mark Manson é um cara esperto.

Não é a toa que seu livro é um best-seller.

Tenho uma teoria para este sucesso: o livro começa com uma linguagem bastante agressiva, que continua mais ou menos até a metade. E isso não é necessariamente ruim. É até libertador. Acho realmente que ele deve ter pensado: “Nossa, todo esse papo de positividade e felicidade enche o saco. Está na hora de um pouco de subversão e cortar as meias palavras.”

Imagino ter sido uma estratégia para criar uma identificação com o público – pessoas que estão naturalmente frustradas atualmente com o caminhar de suas jornadas (não no sentido pejorativo).

Afinal, quem não está, em maior ou menor grau, com algum aspecto da sua vida?

Quando estamos frustrados, estressados e encurralados, a nossa paciência se esvai e… Ficamos mais propensos a usar no dia-a-dia não só uma linguagem mais limitada e agressiva como terminamos nos comportando assim também.

Eu já vivi uma fase dessas e, certamente, você também.

Se este é o momento que vive, ao ler as primeiras páginas pensará algo como “caraca, é assim que eu me sinto e é assim que gostaria de falar!”

Entretanto, ao pregar a aceitação do momento presente, ele recorre à descrições negativas e um foco no problema, na dificuldade. Não são propostas soluções ou abordagens propriamente ditas, apenas a auto-consciência, o autoconhecimento e resignação.

Em outras palavras, merd@s acontecem mesmo e temos que aceitá-las. Move on!

Por falar em momento presente, achei o livro uma versão agitada e com palavrões de “O Poder do Agora” de Eckhart Tolle”.

Já quando menciona positividade, usa uma abordagem muito parecida com a da psicóloga Gabriele Oettingen, da Universidade de Nova York, que associa o pensar e o agir de forma positiva com sonhar acordado.

É claro que pensar de forma positiva não deve cegar você ao ponto de achar que tudo dará certo sempre e incondicionalmente.

Mas raciocine comigo, isso é meio óbvio, não? Se você acha que se mudar para Nárnia resolverá algum problema seu… É provável que ocorra o oposto.

Não me entendam mal, respeito a opinião dele sobre essas questões, até porque muitos argumentos que ele usa fazem pensar. Apenas discordo de alguns (positividade é um deles) e defendo meu ponto de vista em dois textos específicos sobre o tema.

Explico nestes textos o Erro de Otelo. Quando temos um mindset negativo, a nossa tendência é ver o mundo com uma lente negativa e essa visão nos faz sentir pra baixo e agir de acordo.

Não se surpreenda, mas ter um mindset positivo funciona da mesma forma: você passa a atrair coisas boas, pessoas positivas e iniciar uma espiral positiva.

Se você não acredita nisso, sugiro dar uma olhada no Google. Pesquise por: “positive thinking influences life” sem as aspas.

Existem inúmeros estudos que apontam nesta direção.

Todo esse papo nos leva à outro conceito: a tríade da mente, que também explico nos textos sobre positividade.

Uma linguagem verbal positiva, junto com uma postura empoderadora e uma linguagem interna adequada fazem toda a diferença. Amy Cuddy fala isso desde 2010(*) e outros autores, antes dela, há mais de três décadas.

Todavia, como mencionei antes, a partir da metade, o tom agressivo é amenizado e ele passa a fazer algumas sábias considerações.

Para mencionar algumas delas:

  • Diante da adversidade, a nossa imaginação correrá solta, preenchendo lacunas e criando cenários e cenários mentais. A dica é se ater à realidade e aos fatos no presente. Divagar sem limites é um gerador de ansiedade gigante. Eckhart Tolle também aborda o tema no “O Poder do Agora”, ao mencionar a importância de se viver no presente (apesar dele usar menos palavrões);
  • É muito importante que reconheçamos quais são nossos valores. Entretanto, mire em valores “bons”. De acordo com Manson, eles precisam ser realistas, socialmente construtivos, imediatos e controláveis. Valores nocivos, incontroláveis e supersticiosos devem ser evitados;
  • Considerar-se excepcional é uma grande armadilha do ego. Como ele coloca: “(…) Essa ladainha de que “todo mundo pode ser extraordinário e alcançar a grandeza” é só uma punhetagem do ego.” A pressão por ser incrível e inovador em todas as áreas da sua vida pode exaurir os seus recursos e tirar seu foco do que realmente importa;
  • Ser protagonista de sua própria vida e trazer a responsabilidade para si é provavelmente a solução genérica mais adequada para os seus desafios, não importam quais sejam. De fato, talvez muitos deles tenham surgido justamente por essa falta de protagonismo;
  • Porcarias acontecem. Aceite. Releve. Siga em frente. Viva o presente, um passo de cada vez, porque a vida é assim mesmo;
  • A incerteza e a insegurança podem ser o motivo por trás de alguns acharem que podem “trapacear” e passar a perna nos outros. Contudo, também podem ser a raiz para a evolução, o aprendizado, o crescimento ou o progresso;
  • Ele propõe o argumento de que estamos errados o tempo todo. A certeza de hoje é a piada de amanhã e nós não devemos nos agarrar a verdades absolutas porque elas simplesmente não existem. Isso traz humildade, questionamento e evolução.

Vou parar por aqui para não furtar vocês da leitura que, na minha opinião, vale à pena, mas com uma pitada de sal.

O que me incomoda no livro, no entanto, são algumas passagens que são diametralmente opostas ao que acredito.

Mais uma vez, respeito a opinião do autor e, se decidir continuar lendo a partir daqui, saiba que colocarei estes pontos.

Da mesma forma que sugeri ler o livro com uma pitada de sal, não enxergue os próximos parágrafos como uma tentativa de desencorajar a leitura da obra.

Dito isso…

O autor certamente teve uma vida bastante desafiante. Isso fica claro em muitos momentos do texto. Talvez esta seja a razão pela qual ele use uma abordagem amargurada e nada positiva.

Quando ele se refere ao ato de ligar o foda-se (descrição de ação que poderia ser substituída por desapegar ou relevar, dentre outras opções), foca na liberdade de aceitar o que não se pode mudar, aceitar como se “é” e agir de acordo ou seguir em frente (novamente, ele parafraseia Eckhart Tolle).

Coloquei o verbo ser entre aspas acima porque na minha humilde opinião, devemos tomar todo o cuidado ao “aceitar” limitações, coisas (incluindo sentimentos, pensamentos e ações) negativas ou limitantes no nível da identidade.

Repetir para si próprio “não sou bom com relacionamentos” (para usar o mesmo exemplo que ele no livro), atinge a sua identidade (o “ser”) e faz a sua mente e corpo acreditarem nessa “verdade” Em algum tempo, você agirá de acordo e reforçará a limitação.

Minha sugestão é que se use uma abordagem alternativa sutil: associe a limitação ou a negatividade a um estado momentâneo (ao “estar”) ou ao temporário. Algo que pode ser trabalhado e mudado!

Alternativa sadia: “Atualmente, relacionamentos são desafiantes para mim”.

Posso até ouvir o Sr. Manson lendo isso aqui e chamando de punheta de auto-ajuda, put@ frescura ou papo furado de coach. Mas atuar no estado, em algo alterável, certamente é mais saudável do que impor limites a quem você é, repetir para si e eventualmente aceitar isso.

Colocando de outra forma, se aceitarmos todas as nossas limitações, como diabos evoluiremos? Não seria evoluir justamente o enfrentamento e superação destes limites?

Enfim, também me incomoda um livro que passa o tempo todo contando tragédias só para colocar em perspectiva os argumentos que se deseja fazer.

No entanto, não podemos dizer que os relatos de Mark Manson não parecem ser honestos. Ele traz uma abordagem pessoal curiosa sobre as coisas e até sobre Romeu e Julieta. Por este motivo, vale à pena ler.

Especial menção ao último capítulo. Fabuloso. Me perdoem a cutucada, mas francamente, parece ter sido escrito por outra pessoa.


(*) Muitos acadêmicos tentaram refutar o trabalho de Amy Cuddy. As razões para esse comportamento são, no entanto, obscuras (acredito que ela sofreu preconceito por ser mulher e por ter alcançado tanto sucesso com sua publicação inicial).

Através de um novo estudo publicado por ela, as alegações contra seu trabalho foram desconstruídas. Leia a respeito clicando aqui.

um comentário

  1. “Porcarias acontecem. Aceite. Releve. Siga em frente. Viva o presente, um passo de cada vez, porque a vida é assim mesmo;” E é nesses momentos que um “foooda-se” sabe (acho até que faz) bem dizer! 😀

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.