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Referências

Eu só o via direito nos fins de semana.

A primeira lembrança que eu tenho dele é segurando um rádio de pilha. Eu devia ter uns cinco anos.

Tá, eu não sei se é uma lembrança real ou a influência de uma foto que conheço…

Com o tempo, nossas lembranças se misturam mesmo.

Mas ele escutava a Hora do Brasil e eu perguntava coisas.

Porquês seguidos de porquês por horas. Disso eu lembro nitidamente.

Lembro das suas jornadas de trabalho inacreditáveis. Saia antes do sol nascer e chegava em casa às vinte e duas ou mais.

Eu particularmente só descobri aos onze, quando comecei a dormir mais tarde e vi isso acontecer dia após dia.

Calado, introspectivo, rígido, regulado e às vezes intransigente e um pouco ausente… mas honesto, ético, responsável e tantas outras qualidades… até hoje.

Eu não tive muitos heróis. Na verdade, não lembro de nenhum, exceto ele. Minha referência, molde, modelo de gente.

Hábil, sempre foi capaz de fazer qualquer trabalho doméstico.

Muito além disso, projetou as casas onde moramos… foi o engenheiro, arquiteto, eletricista e encanador da família.

Não posso dizer que foi especialmente presente em minha vida, mas não deixou faltar nada.

Eu o via como invulnerável… até o dia em que me fez mudar de opção de curso superior porque não achava que eu passaria.

Me casar com alguém que não tinha a sua aprovação foi o início de um afastamento de dez anos.

Eu passei dez anos julgando e alimentando minha decepção.

Eu não entendia o seu comportamento e a única coisa que eu queria era aceitação. Não concordância, endosso ou ajuda – apenas aceitação.

Ao me separar em 2005, voltamos a morar juntos. Iniciou-se um período de cura mútua onde o convívio fomentou a aproximação.

Curiosamente, foi o ano do seu diagnóstico de Parkinson e Alzheimer, que só descobriria doze anos depois, em 2017.

Nos últimos treze anos, eu vi os nossos papéis se inverterem.

Pouco à pouco, um desafio sutilmente maior aqui, outro ali…

A idade provocando a perda de liberdades.

A perda de contato com o ambiente…

Alterando comportamentos…

Conquistas, habilidades e capacidades.

Crenças.

E, para ele, da identidade.

Ele nunca foi uma pessoa de muitos amigos.

Também não era de se relacionar socialmente.

O reflexo disso desde 2005 é que a vida dele, sob minha ótica, tem sido solitária, principalmente desde a partida da minha mãe em 2008.

Me deixa surpreso, contudo, perceber que ele não parece se sentir solitário.

Tenho me esforçado muito durante esse tempo para promover a sua qualidade de vida e um maior convívio social sem muito sucesso… e cheguei à conclusão de que essa foi e é a escolha dele: introspecção.

Eu levei cerca de dezesseis anos para construir a imagem de herói que eu tinha.

Ela resistiu, inclusive, ao afastamento… mas perceber cada vez mais que o meu herói é um ser humano tem sido o maior desafio de todos. A vida, desconstruindo-o.

Quanto egoísmo da minha parte!

Eu hoje sei. Foi involuntário e agora é uma luta consciente.

Não é sobre o meu herói, mas sobre o que aprendemos.

Mesmo sentindo que ele é humano e sujeito aos ciclos naturais de nossa existência, a ideia de ser meu herói não se afasta.

Ela está mais viva do que nunca quando tenho que fazer escolhas difíceis e preciso de recursos internos como honestidade, ética, responsabilidade e tantas outras qualidades.

A vida é a maior professora de todas.

Me deu um pai modelo de tantas virtudes… e terminei cobrando dele aceitação

A mesma aceitação que tenho que agora ter com ele. Compreensão, amor e paciência por algo que foge totalmente ao seu controle.

Controle esse que exerceu por tanto tempo e talvez seja a lição que a vida está proporcionando a ele próprio, assim como me ensina a aceitar (e a não controlar).

Talvez eu aprenda alguma coisa com a vida.

Talvez duas coisas. Três… quatro… cinco!

Talvez eu aprenda que o controle é uma ilusão, que a aceitação é muito mais do que eu posso dar, quanto mais cobrar de alguém e que ela anda junta com compreensão, paciência e amor.

Nossa, como não sei nada e sou capaz de tão pouco

Chegue meu pai, me dê a mão, segure no meu braço por favor…

Me perdoe.

Permita-me tomar algumas lições mais dessa vida que ensina construindo e desconstruindo em um ciclo eterno de renovação…

Permita-me caminhar mais um pouco com você..

O máximo que der.

um comentário

  1. Perfeito meu amigo, demoramos a entender que nosso caminho é ao lado deles só que com o tempo correndo ao contrário. O tempo os deixa cada dia mais novos “nossas crianças”, e nós?! Vamos amando cada dia mais e descobrindo coisas novas de uma fase que um dia será nossa… um ciclo 🙏🏻

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