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A Regra do Jogo ou o Jogo Sem Regra? (*)


Na década de oitenta surgiu um conceito bastante interessante: o de jogos finitos e infinitos (Carse, 1986).

Um jogo finito é aquele que tem fim e você joga pra ganhar. Existem regras pré-estabelecidas e objetivo(s) pré-acordados a ser(em) alcançado(s), que determina(m) quem ganhou o jogo. Ele é jogado por mais de um participante e o atingimento do conjunto de objetivos, seguindo as regras, determina o fim do jogo para todos.

Já um jogo infinito não tem fim e é aquele que você joga para se manter nele (foco na permanência). Existem algumas regras, mas elas mudam. Podem até existir alguns objetivos secundários, mas eles mudam assim como as regras e, como não há fim, muito menos focado em um objetivo finito (a meta é se manter no jogo), não há o conceito de ganhador, apesar de também contemplar mais de um participante. Adaptar-se é crucial.

Jogos finitos e infinitos são jogados de maneira totalmente distinta e as estratégias são completamente diferentes. Enquanto sucesso no jogo finito é representado por ganhá-lo, no jogo infinito o sucesso é definido por permanecer perseguindo uma causa.

No jogo finito, você compete. No jogo infinito você coopera.

Perceba como a nossa vida é um grande jogo infinito onde as regras são nossos valores e a permanência no jogo é almejada para atender à um objetivo atemporal e inalcançável:

Propósito.

Tanto as “regras” como o “objetivo” são mutáveis. Seus valores podem mudar assim como o seu propósito… de fato, é bem provável que mudem com a maturidade… mas o que realmente importa é continuar no jogo.

Agora, observe como somos ensinados e instigados a perceber e transformar as nossas vidas em uma sucessão de jogos finitos alheios.

A saúde se tornou um jogo finito. Ao invés de perseguirmos uma vida saudável porque isso nos traz bem-estar, ela se transformou em múltiplas dietas, resoluções de ano novo e tratamentos médicos e estéticos para atender a um ideal externo.

O aprendizado se tornou um jogo finito. Estude, passe nas provas, receba diplomas…

O trabalho se tornou um jogo finito. Atinja as metas de um período, entregue os projetos, vença as causas, construa aquela casa, escreva aquele artigo…

Nossa vida pessoal se transformou em um jogo finito. Uma sucessão de “sucessos” materiais que nos impulsionam a sempre querer mais…

Dinheiro, fortuna, diplomas, certificações, conquistas, habilidades, status, prêmios, bens, posições, relacionamentos, desempenho, troféus, medalhas, viagens, peso… e tantas outras coisas, todas colocadas como objetivos de um jogo finito.

Como se motiva alguém hoje em dia? Você tem que ganhar, você tem que vencer… características de jogos finitos.

Compreende por que isso acontece?

Recebemos um conjunto de “regras” em substituição aos nossos valores e de “objetivos” em substituição ao nosso propósito, transformando as nossas vidas em um recurso transacionável. Cedemos os nossos valores e o nosso propósito para que outros os usem.

Pergunto: você já viu alguém ganhar o jogo dos negócios? Ganhar o jogo da vida? Ganhar o jogo profissional? Ganhar o jogo da saúde?

Isso transforma você em produto.

Isso transforma você em um bem comercializável.

Talvez diante desses argumentos você queira aproveitar a oportunidade para revisitar o seu conceito de meritocracia.

É por isso que é tão importante resgatarmos os nossos valores, o nosso propósito e alinharmos os jogos finitos da vida a ambos. É por esse motivo que respeitar nossos valores e caminhar na direção do propósito são tão importantes para a nossa felicidade.

Perceba as implicações de tudo isso. Nos jogos finitos, a objetivo é ganhar dos outros e inevitavelmente comparar-se e competir. Nos jogos infinitos, não há mínima necessidade de comparação ou de vencer alguém.

Pelo contrário, dada a natureza humana e um de nossos mecanismos de sobrevivência (cooperação e convívio social), é crucial que trabalhemos juntos.

Mas Romulo, devo então evitar os “jogos finitos” da vida e focar totalmente na minha “causa”?

Talvez essa seja uma das considerações mais importantes de todas.

Nós precisamos de metas e conquistas. Temos um neurotransmissor (dopamina) para isso.

Ele é uma espécie de recompensa ao completarmos tarefas, ao subirmos degraus em nossas vidas. Quando não temos esses degraus e vivemos sem uma linha de chegada, sem objetivo ou meta, trocamos a dopamina pelo cortisol, com efeitos devastadores, gerando estresse crônico.

Sabe quando também trocamos a dopamina pelo cortisol?

Quando o empenho na direção dessas metas e conquistas está em oposição aos nossos valores e ao nosso propósito.

Portanto, o segredo está em você escolher os jogos finitos que estejam alinhados ao jogo infinito da sua vida e não permitir sermos usados para jogar os jogos finitos dos outros ou incompatíveis com nossa ecologia.

No fundo, a vida é razão em si, quando o propósito é causa e as nossas ações estão alinhadas.


(*) Esse texto faz parte do livro que publicarei em 2019.


Leitura recomendadíssima: Carse, J. P. (1986). Finite and Infinite Games. Nova Iorque, Estados Unidos da América: Free Press (Simon & Schuster).

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