Coaching Vida em Geral

Inteligência Emocional

Há anos que me propus a escrever um texto sobre inteligência emocional para esse blog… e ele terminou virando um capítulo do meu livro, que deve ser lançado ainda este ano.

Tirei alguns trechos do capítulo e coloco para vocês abaixo.


Quando eu ouvi o termo inteligência emocional pela primeira vez, associei-o à calma e à paciência. Foi no fim de década de noventa e lembro que muita gente que conhecia desenvolveu interpretações semelhantes. Demorou um bom tempo para eu começar a entender que inteligência emocional vai muito além e está mais para usar a emoção adequada diante das mais diversas situações.

Entretanto, apenas recentemente eu compreendi a participação disso no contexto social e como as relações interpessoais, seus laços, o rapport, a empatia e toda uma série de mecanismos de conexão entre as pessoas provavelmente são os fatores mais importantes de todos para o sucesso.

A Origem

Há mais de cem anos que usamos o quociente de inteligência (QI) criado por Alfred Binet como parâmetro para medir o quão inteligente um indivíduo é.

O teste de QI foi usado ostensivamente ao longo da história, principalmente no início do século passado, para medir desde a probabilidade de alunos se darem bem na escola até a inteligência de soldados antes da primeira grande guerra e vem sofrendo revisões frequentes para se adequar às novas descobertas no ramo da psicologia e cognição.

Todavia, a associação do QI com o sucesso dos indivíduos tem sido inevitável e a partir daí, começou a se constatar, principalmente desde a década de noventa, que um alto QI não é um bom indicador de sucesso.

A ideia por trás da inteligência emocional não é nova e surgiu nos anos sessenta (Davitz & Beldoch, 1964).

Já o ponto de vista dela talvez ser mais importante do que o QI, no que diz respeito ao sucesso, foi levantado por Howard Gardner na década de oitenta (Gardner, 1983), melhorado por Peter Salovey e John Mayer em 1990 (Salovey & Mayer, 1990) e expandido por Daniel Goleman em 1995 (Goleman, 2012), lançando o termo “inteligência emocional” ao estrelato.

Gardner e Goleman advogam que o QI, como indicador de inteligência de uma forma geral, é ineficaz. O teste de QI mede habilidades racionais e que deixam de lado toda a importância das nossas emoções, sentimentos e como saber lidar com ambos.

Enquanto o raciocínio analítico é importante em várias áreas do conhecimento humano, é a habilidade de controlar e usar as emoções ao nosso favor que nos permite gerar empatia e estabelecer relacionamentos mais eficazes e proveitosos, campo onde um alto QI não garante absolutamente nada.

Gardner apoia sua argumentação na existência de múltiplas inteligências e Goleman parece ter seguido a mesma linha de raciocínio: ele tem esticado esse chiclete ao máximo, lançando inúmeros livros desde 1995 tratando do tema sob várias perspectivas, inclusive identificando outras “inteligências”, como a social.

Mas também é fato que o conceito de inteligência emocional ganhou muita força e vem na prática aos poucos tomando espaço do QI, pelo menos para prever o sucesso das pessoas.

A Definição

A noção por trás da inteligência emocional inclui algumas características principais: a habilidade de reconhecer as próprias emoções, a capacidade de regular as emoções apropriadamente, a de auxiliar os outros nessa tarefa e a habilidade de usar as emoções adequadamente no dia a dia para resolver problemas, conflitos e até ajudar em questões como o pensamento criativo, motivação e empoderamento.

Em resumo: reconhecê-las, controlá-las e usá-las adequadamente.

Eu sei, deve estar pensando “fácil de escrever, mas na prática…”

Como Funciona e o Que Fazer?

A primeira coisa que você precisa entender é como o nosso cérebro reage a estímulos externos no que diz respeito às emoções. Quando recebemos um estímulo através nos nossos canais representacionais visual, auditivo ou cinestésico (VAC), a informação é enviada simultaneamente para vários lugares e, eventualmente, tornamo-nos conscientes de parte do que chega.

Do que veio ao consciente, é gerado um pensamento que, por sua vez, gera emoção(ões) e sentimento(s) relacionado(s), que podem ou não resultar em ações da nossa parte, sendo potencialmente influenciadas por como nos sentimos. Esse pensamento gerado já é resultado de uma percepção influenciada pelos filtros e pelo mapa individual.

Contudo, existe uma exceção à regra: quando por algum motivo nosso cérebro acredita ser uma situação de emergência, ameaça ou perigo. Nesse caso a região da amígdala (não, não estou falando das amígdalas na garganta, mas de duas pequenas amêndoas no centro e embaixo do cérebro), pode sequestrar as nossas ações e disparar uma reação de lutar ou fugir.

Estamos diante de um comportamento que ocorre mais rápido do que o nosso consciente. É por esse motivo que reagimos algumas vezes “sem pensar”, quando estamos tomados pela raiva ou medo, inseridos em uma situação de perigo ou ameaça iminente: agimos e só depois nos damos conta do que fizemos (ou, algumas vezes, da burrada que provocamos).

Segundo Paul Ekman (Pogosyan, 2018), nossas emoções deveriam estar coordenando o show das nossas vidas. Em um passado distante, elas eram a diferença entre viver ou morrer. Com o crescimento das nossas habilidades analíticas e racionais, junto com as funções superiores, ganhamos outra habilidade: a de intervir – de uma forma pragmática, ganhamos um filtro, em forma de região em nosso cérebro, chamado córtex pré-frontal.

Explorando essa “nova” habilidade, você deve se condicionar a identificar cada emoção e sentimento que sente, algo que pode parecer simples (demais) para alguns. Leva algum tempo até adquirirmos esse hábito, mas ele o ajudará a trazer para a superfície da sua consciência a emoção e o sentimento gerado pelo pensamento que acabou de ter, permitindo que você os associe.

Costumeiramente temos pensamentos e reagimos no impulso (ou deixamos os hábitos tomarem conta, levados pelas emoções). Controlar impulsos é talvez a habilidade mais importante no que concerne a inteligência emocional, com exceção do reflexo de lutar ou fugir, onde pouco podemos fazer.

Só o tempo que você levará para identificar emoções e sentimentos, associando-os aos seus respectivos pensamentos, trará maior autocontrole.

Por falar em autocontrole, durante décadas acreditou-se na psicologia que ele e a motivação fossem recursos finitos e que, ao esgotá-los, seríamos incapazes de manter o controle ou seguir em frente.

Essa perspectiva ficou conhecida como a teoria da depleção do ego. Entretanto, ela vem sendo sistematicamente questionada diante da incapacidade de reprodução e da detecção de erros de análise estatística (Carter, Kofler, Forster, & McCullough, 2015) / (Lurquin, et al., 2016).

A renomada psicóloga Carol Dweck (a mesma de Mindset) já tinha achado evidências, antes dos estudos/meta-análise de 2015 e 2016, de que as nossas crenças têm influência fundamental nisso (Job, Walton, Bernecker, & Dweck, 2013).

Colocando de outro modo, quando acreditamos que nossa motivação e autocontrole são recursos finitos (e apenas nesse caso), agimos de acordo.

Quantas vezes você já repetiu para si ou para os outros frases como “minha paciência se esgotou”?

Isso reforça o poder das nossas crenças e de acreditar que podemos não só controlar nossos impulsos como também seguir em frente, não importa o tamanho dos obstáculos.

O mais interessante é que, quando você torna essa prática um hábito, as vezes em que a amígdala capturará sua reação e a enquadrará como lutar ou fugir tendem a diminuir, entregando para a sua vontade e discernimento o ato de reagir da forma que interessar. Como tantas outras, é uma habilidade que, ao ser treinada, melhora com o tempo.

Identificar e enfrentar essas emoções é (Goleman, 2012), inclusive, uma das formas de tratar pessoas com transtorno do estresse pós-traumático (TEPT ou, do inglês, Post Traumatic Stress Disorder – PTSD), uma condição onde o indivíduo é exposto a uma experiência traumática tão forte que deixa sequelas emocionais e cerebrais.

Diante de um gatilho ligado à experiência, a amígdala sequestra o comportamento do cérebro fazendo a vítima reviver a situação original, evitar qualquer coisa que lembre a experiência, ficar superexcitada emocionalmente ou ter pensamentos e crenças negativas.

À medida em que se exercita o hábito de identificar as emoções e associá-las aos pensamentos originadores, você ganha alguns segundos importantíssimos e, com o tempo, a habilidade de controlar suas reações vai crescendo (no caso de vítimas de TEPT, o cenário tende a ser mais delicado e requer acompanhamento médico).

Veja a importância e a repercussão disso na sua vida:

  1. O que você pensa influencia as suas emoções;
  2. As suas emoções geram sentimentos e determinam como se sente;
  3. O que você sente influencia o seu comportamento;
  4. O seu comportamento e as suas ações são como o mundo percebe você;
  5. Como as pessoas percebem você influencia os seus relacionamentos;
  6. Os seus relacionamentos influenciam os seus resultados;
  7. Os seus resultados influenciam como você se sente.

Ao tornar suas emoções conscientes e associá-las aos seus pensamentos, você estará intervindo no primeiro passo, na raiz de tudo.

A todo momento, a nossa mente inconsciente está recebendo estímulos e interpretando-os diante das nossas experiências passadas, hábitos, crenças e tudo aquilo que carregamos. Ela gera alternativas de reação que são tratadas na sequência, quando se tornam conscientes (mas nem tudo vem à tona).

Entre o estímulo inicial e o completo controle pelo consciente, onde você terá a possibilidade de focar e racionalizar totalmente a situação, podemos ter de meio segundo a um segundo e meio de atraso (Nørretranders, 1998). Se a mente classificar a situação como merecedora de uma reação de lutar ou fugir, você vira passageiro: a sua ação de proteger-se ou partir pra cima acontece sem o seu consciente tomar conhecimento inicialmente (ele eventualmente saberá o que aconteceu, mais ou menos meio segundo depois). Ou seja, pouco podemos fazer aqui.

A real oportunidade aparece quando a reação de lutar ou fugir não ocorre e você começa a identificar as emoções, lado a lado aos seus pensamentos.

À medida em que identificamos a emoção que surgiu, começamos a ganhar o controle da situação – ela passa cada vez mais para o foco do consciente, onde é possível racionalizar e mudar as nossas ações resultantes.

É importante entender que as reações comandadas pelo nosso inconsciente são muito mais rápidas do que aquelas que ganharam a atenção do consciente e que a capacidade desse último de lidar com múltiplos estímulos é absurdamente menor. Quando o nosso consciente está ocupado ou com sono por exemplo, a nossa capacidade de reagir adequadamente diminui.

Outro ponto a se considerar é que não estamos falando de algo bom ou ruim: precisamos das duas habilidades! O grande objetivo da inteligência emocional é ter acesso e usar o melhor recurso, adequado para cada situação (Kahneman, 2012).

Tenha em mente que, se a pessoa não criar o hábito de identificar e associar as emoções aos pensamentos que surgiram e parar por alguns segundos para dar tempo de formular opções conscientes, ela estará abrindo mão de atuar e abrindo espaço para as reações automáticas.

Inteligência Emocional e Empatia

À essa altura você já deve ter percebido a íntima relação que existe entre a empatia e a inteligência emocional.

Será então que podemos afirmar que, ao identificar apropriadamente as emoções dos outros, consigo agir de forma mais adequada, da mesma forma que ao reconhecer as emoções e sentimentos em mim, associando-os aos pensamentos de origem, crio a habilidade de controlá-los e, por consequência, usá-los adequadamente?

Será que, ao fazer isso, aumento o meu potencial empático?

Pois é, esses são exatamente os pontos em questão. Sem a habilidade de detectar nossas próprias emoções e as emoções dos outros, a mágica não acontece.

Todo esse operacional emocional é uma caixa cheia de ferramentas. Existe uma tendência ao sincronismo entre as pessoas quando a comunicação é eficiente e esse sincronismo se dá em diversos níveis, refletido nas expressões faciais, corporais, em todo o espectro da comunicação não-verbal (Dimberg, Thunberg, & Elmehed, 2000) e, também, chegando na empatia através das emoções.

Tudo está interligado: rapport, empatia, comunicação não-verbal, inteligência emocional e social. Pessoas incapazes de reconhecer as emoções dos outros e de ler as pistas não-verbais (dissemia) são desastres sociais, não importa o QI que tenham. Não conseguem se relacionar, construir relações duradouras e são frequentemente excluídas dos círculos sociais.

Por outro lado, pessoas que identificam as suas emoções, as emoções dos outros e ajustam a sua atuação social de acordo com as expectativas do(s) seu(s) interlocutor(es) são as mais aceitas e as que potencialmente tem mais sucesso. Mas o exagero também traz penalidades.

Os ditos “camaleões” sociais são aqueles que deixam de lado as suas próprias opiniões, posicionamentos e convicções, abrindo mão de quem são para agradar, ascender socialmente ou conseguir algo específico (Snyder, 1987).

Como Goleman aponta, pessoas assim são, tipicamente, advogados, atores, vendedores, diplomatas, políticos… que pagam um preço alto em relacionamentos superficiais e na impressão usual de não serem confiáveis.

Repertório Emocional

Todo esse arcabouço de recursos emocionais é desenvolvido desde os nossos primeiros meses, ao nos relacionarmos com nossos pais e chorarmos quando queremos algo. Não é chantagem emocional. Trata-se de um perfeito exemplo de comunicação, naturalmente limitada aos recursos que um bebê tem acesso.

Chorou e a mamãe vem? Comunicação eficiente.

À medida em que crescemos, o repertório de recursos aumenta. Portanto, entenda que você provavelmente já possui dentro de si todos esses recursos instalados e os usa sem ter consciência (alguns são até usados contra você). Quanto mais usados, mais enraizados em nosso inconsciente, sob a forma de hábitos emocionais.

Alguns são eficazes, outros podem não ser. É por esse motivo que quando começamos a identificar nossas emoções e sentimentos conscientemente, assim como os das outras pessoas, as coisas se encaixam e a habilidade que antes estava escondida e era usada sem você perceber, passa a ser algo que pode ser exercido intencionalmente.

Ao trazer esse operacional para o consciente, podemos intervir e… ao intervirmos repetidas vezes, geramos novos hábitos! Com isso, temos a capacidade de aprender novos “comportamentos” emocionais (ou corrigir velhos hábitos limitantes). É certamente desafiante, mas perfeitamente possível ressignificar.

Contudo, ao fazermos isso e mudarmos nossos hábitos emocionais de limitantes para possibilitadores estaremos sendo “falsos”, a partir do momento que criamos novas reações de acordo com nossos interesses?

Não mais do que ser verdadeiro com alguém ou contar uma mentira, o que depende de outras características da personalidade. A inteligência emocional é um conjunto de ferramentas e, assim como uma chave de fenda pode ser usada para construir coisas, pode ser usada para agredir alguém. Se você as usar para enganar e dissimular no intuito de obter algo, nada mais estará fazendo do que se comportando compativelmente com quem é, no fundo.

Ao ser fiel à sua essência, estará sendo harmonioso para com os seus valores e verdadeiro com o mundo externo também. Em outras palavras, não é o controle emocional e a habilidade de ajustar sua representação social que fará de você alguém mais ou menos confiável, mas sim deixar de ser fiel à sua opinião, mentir ou enganar: as suas ações resultantes da aquisição da inteligência emocional e social serão uma extensão do tipo de pessoa que já é. Após educar-se no processo de identificar emoções e sentimentos, você começará a descobrir quem é embaixo das múltiplas camadas de proteção.

Agora que você está no caminho de domar as emoções, que tal usar esse conhecimento para ajustar a sua vida de forma positiva?

Justin Bariso (Bariso, 2018) sintetiza extraordinariamente, em uma pergunta, quão bem estamos no quesito inteligência emocional:

“Em que situações eu acho que as emoções estão agindo contra mim ou meus interesses?”

Ao respondê-la, você descobrirá onde disse algo que não queria ou deveria, onde não entendeu as emoções de alguém prejudicando a empatia, onde achou difícil gerenciar conflitos, onde deixou passar oportunidades por causa do medo, da raiva ou da ansiedade e até quando concordou em fazer algo porque estava excitado ou de bom humor, para descobrir depois de algum tempo que deveria ter analisado melhor o caso.

Lembre-se: o segredo está em identificar a emoção que o pensamento desperta, em trazer ao consciente. Esse meio segundo, quem sabe até um ou dois segundos que você usará para isso, farão toda a diferença entre entender como agir adequadamente e evitar uma reação levado pelo impulso. Se for o caso, leve até mais tempo!

É melhor contar até dez e ter uma reação adequada do que colocar tudo a perder (segredinho pra você: contar até dez funciona porque é uma tarefa feita no consciente. É justamente ele que queremos chamar para participar.).

Uma vez despertada a consciência e mais calmo, aproveite para esboçar em sua mente algumas opções positivas! Nenhuma espiral negativa lhe trará coisas boas.

Reação emocional sanitizada e adequada, parta para o próximo passo: identifique a necessidade que está ou não sendo atendida e que foi a raiz da emoção provocada.

Perceba como as coisas ficam mais evidentes ao trazer à tona essa necessidade. Sim, reagir com inteligência emocional, por mais eficiente que seja e por mais benéfico que possa ser aos sistemas que pertence, é um efeito colateral de algo mais abrangente.


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