Ficção

Ju e Carlos

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Ju e Carlos definitivamente não foram feitos um para o outro.

Moram longe, são de gerações distintas, histórias complexas, comportamentos díspares, crenças às vezes compatíveis, valores razoáveis. Torcem para times diferentes e votam em candidatos opostos.

Mas se balançam parecido.

Alías, será que isso existe mesmo ou cremos em destino quando faz sentido?

Horóscopo?

Bem, nesse ponto, dizem que combinam.

Mas não importa.

Primeiro, foi um simples “oi, tudo bem?”.

Semanas depois, olhares cruzados.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Ela, com suas bochechas altas. Ele, com seu semblante sério.

Dois mundos completamente diferentes em aparente sintonia.

Ela, com seu sorriso de menina. Ele, com ar de descrença.

Não era pra ser.

Ou era.

Ou é.

Sendo ou não, cresceu.

Saiu do olhar.

Passou para uma careta aqui, outra ali.

Ah, as caretas.

Uma frase, uma piada, um sorriso.

Dois sorrisos… vários, coleções de sorrisos.

Um toque, dois três…

Um bem querer.

Dois bem quereres.

Um monte deles.

Mais sintonia, mensagens, uma comunicação natural… uma troca tão gostosa.

Faltava presença.

Mas nem faltava muito assim.

Já havia tanto entre os dois… que encurtar distâncias virou sem sentido.

Entretanto, existia algo mais.

Não só um sentimento crescendo, mas uma saudade também.

E a idade.

Neste quesito, a diferença não muda.

Até aquele dia em que conversaram.

“Eu me preocupo com a nossa diferença de idade.”
“Ela é muito grande, seremos julgados… como será em 10 anos, 20 anos?”

“Eu não me preocupo com isso… algo tão relativo e há tanto para ser vivido.”
“Em poucos dias vivemos tanta intensidade e em dez anos viveremos tanta coisa ainda…”
“O que realmente importa? Sermos quem somos ou satisfazer expectativas?”

“É né…”

Ele nunca esquecerá da naturalidade daquelas palavras, do desejo em continuar e da simplicidade de sua reação quase involuntária.

Com essas três frases, a realidade se refez.

E não havia mais barreiras.

E como as coisas sem limites, continou a crescer.

E como o amor que surge da paixão…
Que surge da empatia…
Que surge do rapport…
Que surge do simples contato…
Que surge de reconhecer a presença mútua… o “eu” em cada um.

A presença, sem estar necessariamente presente.

O compartilhar de ideias.

O bem querer regou esse jardim.

Até quando?

Não sei.

Realmente importa?

Só sei que, da última vez que eu os vi, estavam torcendo por eles e isso me contagiou.

Segui torcendo também porque, afinal, o que é a vida, se não encontros e desencontros…

E uma esperança por finais felizes.

Quando Carlos me contou essa história originalmente, o que mais me marcou foi o “É né” que ele soltou, quando ouviu de Ju que… o que realmente importa são as experiências em conjunto que carregamos.

A reação dele, diante do óbvio que o meu próprio julgamento não quis perceber. Uma constatação tão inocente de uma carga emocional e social tão grande que…

De repente…

Vai embora e liberta.


Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos, ocorrências, nomes, pessoas ou situações da vida cotidiana ou do passado é mera coincidência. A escolha dos nomes da crônica foi baseada na lista de nomes mais comuns no Brasil, divulgada pelo IBGE.

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