Pensamentos Com Vida Própria

A Troca

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Como alguém que já enfrentou a depressão, tenho uma questão pessoal com o cumprimento “Olá, tudo bem?”.

Vivemos em um mundo onde, de fato, trata-se de um cumprimento e não de uma pergunta genuína.

Sintoma característico de um mundo que carece de expressões de genuidade e profundidade.

O contexto histórico, e porque não dizer o antropológico, em contraste com a atualidade, me perturbam.

Fomos adestrados socialmente a responder “tudo bem!” quando… nem sempre se está bem.

A própria pergunta é uma sugestão.

“Se você for infeliz em paz você não consegue emprego.”
Leandro Karnal / Luiz Felipe Pondé – Roda Viva

A situação é mais bizarra ainda do que se pensa. Muitas vezes, responder apenas “tudo bem” é o suficiente para o interlocutor olhar de lado e torcer o nariz.

A resposta esperada é um entusiasmado “tudo ótimo!!!!”.

Como Sheryl Sandberg bem coloca (Sandberg, S., Grant, A., 2017), não só uma resposta sincera não é aguardada, como a expectativa é de que sustentemos o ideal da felicidade permanente.

Ah amigo, não sabe ser feliz cem por cento do tempo? Será evitado, hein!

A ditadura da felicidade.

Será eventualmente excluído das redes sociais, dos chats, das agendas e do pífio convívio presencial porque, hoje, o ideal de existência é a pessoa extra power hiper supostamente motivada, feliz o tempo todo, sorriso de orelha a orelha, energética e pra cima, saltitante que não tem problemas aparentes mas vive em um mundo de ruínas… e é incapaz de pedir ajuda em favor das aparências.

Quantas pessoas que você conhece estão no grupo que diz para alguém triste algo como “deixa de ser besta…”, “se anime”, “não seja tão negativo” e coisas do gênero, como se a felicidade fosse um botão?

De que lado você está, do grupo que fala ou do grupo que sente?

Quem recrimina aqueles que assumem estar precisando de ajuda?

Quem quer saber se as coisas não vão como esperado, se há tristeza por trás de um sorriso social ou lidar com as dificuldades alheias?

Quem quer saber, de verdade?

Você?

Essa é uma ótima pergunta.

Dois meses atrás, conversando com um seguidor no Instagram, a troca de cumprimentos se iniciou como previsto.

Entretanto, senti que algo estava fora do lugar.

Perguntei: “como você está?”

A segunda resposta foi: “estou ótimo!”

Repeti a pergunta.

E a resposta foi: “Não entendi”.

Perguntei pela quarta vez: “como você está?”

Recebi um “caralho… assim você ACABA comigo…

Uma resposta bem apropriada também para mim mesmo.

Acho que a conversa foi maravilhosa para ambas as partes.

Pela primeira vez em muito tempo, eu pude falar como realmente me sinto.

Com um estranho.

A sensação de alívio foi gigante.

Troca.

De lá para cá, mudei a forma de perguntar e comecei a reparar nas pessoas que perguntam como estou e que realmente querem saber.

São poucas.

Realmente nos importamos?

Quando alguém passa por um momento difícil, o que fazemos?

Damos uma tapinha nas costas da pessoa ou enviamos uma mensagem dizendo “conta comigo”, “me liga depois” ou “gosto muito de você e estou aqui se precisar”? Muitas palavras sem ações práticas?

Mensagens confortáveis e bonitas nas redes sociais seguidas de… nada? Ausência prática, falta de tangibilidade?

Isso é afastamento.

Falta de prioridade. Isso é querer agradar a todos.

E tá tudo bem, ninguém é obrigado a lhe dar prioridade. Só tenha a consciência de depositar as expectativas no lugar apropriado e… eu jamais direi a você o que é apropriado.

Mas posso dar a minha opinião: quem realmente se importa vai além.

Quem realmente se importa chama para junto ou vai ao encontro. Cria a oportunidade de ajudar. Age e sai do campo de apenas desejar o melhor.

Substituímos a empatia pela aparência, ligada a um alter ego criado para satisfazer às expectativas externas e mútuas. Em um mundo de superficialidades, querer agradar a todos é plausível na mente de quem é superficial.

Troca externa e material. Melhor dizendo, barganha. Negociação.

Você me agrada eu agrado a você.

Como trata-se de um comportamento epidêmico, esperamos isso dos outros, afinal, estamos negociando.

Fico especialmente intrigado porque fielmente ainda acredito ser a empatia a cola social.

Esse descolamento ocorre cada vez mais, diante do descompasso entre as emoções reais do que é esperado socialmente.

Quando reparamos demais nesses contextos externos, esquecemos de olhar para dentro. Esquecemos de respeitar quem somos.

Opa! Belo de um paradoxo.

A empatia como cola social nos une altruisticamente, mas a expectativa navega na direção de contatos aparentes e ausentes de essência.

Mas… por que isso acontece?

Antropologicamente, chegamos aqui por sermos seres sociais.

Queremos ser aceitos.

Queremos pertencer… e o detalhe importante mora aqui:

Idealizamos quem não somos ao criar um identidade que espelha quem desejamos ser – e vivemos nessa perseguição das expectativas dos outros.

Será que a cola está gasta? Será que está falhando e, como humanidade, estamos indo em direção à desunião, ao desmoronamento das instituições humanas em favor de algo ainda indeterminado?

Não sei a resposta.

Yuval Noah Harari em Sapiens (Harari, 2015) fornece algumas evidências históricas contra e a favor deste argumento, continuando o pleito ao olhar para o futuro em Homo Deus (Harari, 2017).

Talvez estejamos nos transformando em algo que não sabemos ou seja muito cedo para saber.

Estamos manipulando a própria fábrica da nossa existência, com profundas implicações.

Ou, quem sabe, como reza a navalha de Occam onde “sendo outras coisas iguais, explicações mais simples geralmente são melhores que as mais complexas”, eu tenha chegado a uma idade onde o presente me parece estranho…

Ou esteja à procura de ser aceito.

De uma coisa eu sei.

Totalmente diferente de deixar de ser positivo, quero ter a liberdade de dizer quando não estou bem, sem ser julgado ou segregado.

Quero a troca empática, natural e não material. A troca que ocorre pelo respeito frente à doação.

Quero muito?

Outra coisa que eu descobri:

Quem realmente se importa.

Permita-me provocá-lo e concluir convidando-o a assistir esse clipe. Preste especial atenção à letra desta música:

Desconstrução.

 

Se você chegou até aqui, tem dúvidas ou não entendeu nada (e ainda assim quer entender), veja os vídeos abaixo.


Conteúdo adicional:

 

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