Espiritualidade Pensamentos Com Vida Própria

Vamos Falar Sobre Deus?

Quem sou eu na fila do pão pra falar de Deus?

Absolutamente ninguém.

Como queira chamar, copiando de outro texto meu: Criador, YHWH, Pai, Alá, Universo, Iluminação, Plano Superior, Eu superior ou Eu maior.

Para a finalidade deste texto, quando mencionar Deus, aponto respeitosamente para a definição de Ser ou seres supremos como cultivamos religiosamente ou, na ausência de uma religião, de Algo superior a nós.

Não sou hoje filósofo, catedrático, seminarista, budista, espírita, psicólogo ou qualquer outra definição.

Sou apenas curioso e questionador.

Então, esse texto será sobre minha jornada espiritual.

Não religiosa; espiritual e ignorante, diga-se de passagem.

Uma busca.

Algo que tenho encontrado ao longo dos anos é o conceito de que Deus, em incontáveis representações, É perfeito, onisciente, onipresente e onipotente.

Permita-me então fazer algumas considerações sobre isso.

Em primeiro lugar, a própria etimologia da palavra “conceito”, usando essas definições, nega Deus.

Conceito é uma formulação abstrata que o ser humano é capaz de fazer. Se perfeição, onisciência, onipresença e onipotência são conceitos humanos, são imperfeitos.

Se existe um Deus perfeito contido em tudo e todos, ele é incompreensível, porque nós somos imperfeitos. Nada advindo da imperfeição é perfeito.

Imperfeição não consegue conceber perfeição e não consegue entender perfeição. Qualquer conceito ou concepção nossa (falha) para um Deus (perfeito) é, no mínimo, incompleta.

E se algum ser humano afirma compreender Deus, desculpem-me, é prepotência e ego demais. Simples assim.

Historicamente, muitas religiões, fés e crenças colocam uma imagem humana ou simbólica em Deus. Se não for humana, relacionam Deus a alguma coisa que o ser humano é capaz de idealizar, palpável. Traz para o campo do imaginário humano algo inconcebível.

Deus, por definição, não pode sequer ser considerado “ser”. Ele simplesmente É.

Várias religiões colocam também uma concepção de punição merecida para algo pelo qual devemos nos arrepender eternamente em favor de absolvição.

Punição e recompensa, para qualquer instituição humana religiosa é bastante confortável, como relação de troca e submissão.

Não só isso, lembrando mais uma vez: Ele É, perfeitamente. Com ou sem intermediários (imperiosamente imperfeitos).

“E o homem, em seu orgulho, criou deus,
a sua imagem e semelhança.

Friedrich Nietzsche

Isso relaciona-se tanto com a onipresença, com a onisciência e, de certa forma, com a onipotência.

Em segundo lugar… investiguemos a onipotência como um caso à parte.

O que acho mais intrigante diante do conceito de onipotência são outros dois: livre-arbítrio e destino.

Eles são mutualmente excludentes.

Enquanto um existe, os outros desaparecem.

Partindo do princípio de que a onipotência é o poder supremo e absoluto, o livre-arbítrio implica no potencial para o poder supremo e absoluto, mas no lugar supostamente errado e conflitante (nós).

Mais, livre-arbítrio implica na ausência do conceito de destino, que muitas religiões pregam com afirmações análogas a “se Deus quiser”, “se Deus permitir” e “Graças à Deus” ou… melhor ainda, no exercício diário de pedir À entidade Divina por sua intervenção, desde no resultado do jogo de futebol até na cura rápida de enfermidades.

Não existe coexistência entre livre-arbítrio, onipotência de Deus e um destino escrito ou pré-determinado. Se você espera que Deus o ajude, você não compactua com aquilo que é representado por pelo menos 60% das pessoas que seguem as religiões mais comuns do mundo.

Um Deus que tudo pode, tudo pôde ao criar o livre-arbítrio e abdicando da onipotência, pois deixou de poder tudo em favor de nos agraciar com o livre-arbítrio.

Ao nos fornecer a capacidade de arbitrar livremente, não só abdicou da onipotência como nos deu a liberdade de definir o nosso próprio destino e… qualquer intervenção Divina em nossa realidade nega a onipotência e o livre-arbítrio.

Em outras palavras, se existe um Deus onipotente que mete a mão no nosso dia a dia ou no universo, ou não existe Deus ou ele é falho, pois precisa intervir para corrigir ou reparar o rumo das coisas atendendo aos nossos pedidos imperfeitos e limitados em um contexto universal.

É um paradoxo claro.

Em muitas religiões, ao acreditar em Deus, você não acredita em destino ou… não acredita em livre-arbítrio, exceto se acreditarmos apenas em algumas coisas e outras não, de acordo com a nossa conveniência, o que nega a fé religiosa.

O ser humano é contraditório.

É o que nos impulsiona ao desconhecido para… conhecer mais.

Barroco.

Explicar tudo isso como uma prática humana, em face das variáveis, conceitos e necessidades de conforto e amparo que temos, faz mais do que sentido. Nesse aspecto, a espiritualidade atende a uma necessidade fundamental do ser humano que transforma vidas há dezenas de milhares de anos.

Mas há o inexplicável.

Temos uma tendência de classificar como Divino aquilo que não explicamos.

Então, voltemos nossos olhos ao passado, para as inúmeras coisas que dez, cem, mil anos atrás eram obra do Divino e hoje são lugar comum.

Raios, chuva ou estrelas cadentes, por exemplo.

Usar o argumento de que Ele É o que não explicamos torna-se frágil… mais pela amplitude da nossa ignorância, aceitável, mesmo sabendo que o ser humano tem não só uma tendência, mas um desejo profundo de explicar TUDO através daquilo que apenas faz sentido. Nesse ato, incluímos a fé, posição confortável para esclarecer o inexplicável e para separar crentes de descrentes.

Chegamos num impasse: a fé que segrega seres humanos, criando preconceito, comparando, qualificando e gerando conflitos e guerras… Exatamente o oposto do que muitas religiões pregam: aceitação.

Matamos em nome Dele.

Talvez nos falte humildade.

Partindo desse princípio, evoluamos nosso bate papo para outra esfera, justamente a da humildade.

Há o que não sabemos.

Somos falhos.

Sentimos a espiritualidade, algo maior que (e em) nós, em milhares de anos foram expressos em incontáveis vertentes espirituais (e religiosas).

Será esse movimento puramente humano e ausente de algo maior?

Quem sabe?

Ninguém.

Saber neste caso contradiz a premissa da imperfeição não conseguir conceber a perfeição.

Então, como se livrar deste beco sem saída?

É inegável o material, as crenças e a fé que tantas religiões produziram ao longo dos milhares de anos. Enquanto as religiões são inúmeras, todas demonstram algo em comum: espiritualidade, quase que como um sentido humano, tão presente como ver, ouvir, cheirar, degustar ou sentir frio.

Não dá para simplesmente ignorar centenas de séculos. Isso faz parte de quem somos.

Outras coisas em comum: emissários, messias e regras.

Não vou nem falar da relação entre regras e o livre-arbítrio: entendo que a questão é auto-explicativa, principalmente quando o ser humano pratica a comparação ao julgar o próximo baseado em suas próprias crenças, fé ou religião.

Corro algum risco ao afirmar isso, mas se por causa da sua espiritualidade ou religião você se considera melhor ou pior do que alguém…. há um convite claro à reflexão.

Reflexão posta, mais uma vez percebamos como muitas manifestações sociais de religião ou de espiritualidade designam seres humanos mais ou menos evoluídos, mais ou menos iluminados, o que invariavelmente gera uma hierarquia dentro dessas mesmas manifestações.

Entramos em loop: muita fé nega a reflexão e a investigação… afinal, analisar, examinar, investigar e questionar é execrado em nome da coerência e integridade religiosa através da fé.

Se você chegou até aqui, agradeço.

Mas se chegou acreditando que tenho respostas, sinto decepcioná-lo.

A minha busca continua com uma profunda certeza:

A ignorância.

Não será tudo o que eu falei até agora uma excelente definição de fé, pois não importa o resultado da busca, ainda assim quero acreditar? Se não pela imperfeição, pelo benefício da dúvida contida na mesma ignorância.

Nossa, outro paradoxo.

Talvez tenha provado para mim mesmo que sou humano, ignorante e imperfeito.

Sigo na jornada, sem atribuir à Ele infortúnios ou bençãos: apenas o mistério, cuidadosamente separando daí aquilo que é posto pela imperfeição humana como explicação para algo que ainda não entendemos.

E isso sim, me dá muita vontade de seguir em frente.

 

“Deus brota dentro de você, como você. Deus não está interessado em assistir a uma performance de como uma pessoa espiritual se parece e se comporta. (…)” Deus brilha dentro de mim, como eu. “

“God wells within you, as you. God is not interested in watching a performance of how a spiritual person looks and behaves. (…) “God wells within me, as me.”

Comer, Rezar, Amar

 


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