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Ditadura de Risos e Aparências

Como aficionado por tecnologia, assíduo participante de fóruns e debates online desde a época das BBS (isso tem bem mais de 20 anos), das pessoas que conheço, fui um dos primeiros a entrar nas redes sociais, ainda quando cada uma delas surgiu.

Em algum momento do passado (por volta de 2005), apaguei boa parte e fui recriando ao longo dos anos (Eu sei exatamente porquê apaguei minhas contas).

Dos debates enviados através do protótipo do que viria a ser o email de hoje, através das BBS até as redes sociais, a comunicação virtual mudou totalmente.

Mensagens demoravam dias para chegar e assemelhavam-se literalmente ao processo de escrever e enviar uma carta, só que eletrônica.

Na época, existia ego, sim. Mas pela ausência de uma série de coisas que se fazem presentes hoje, ele estava associado irremediavelmente aos bons (ou ruins) argumentos apresentados.

Dica: se sua vida online é… digamos, forte, presente e contundente, leia este artigo, procure pela pirâmide da discordância de Graham ou, se me permite, leia o livro que lançarei em breve (O Guia Tardio).

Agora, a comunicação é instantânea e volátil.

Mais, existe uma associação íntima entre a mensagem, o veículo e a identidade.

Mais ainda, existe uma confusão entre identidade, imagem e mensagem. Aparentemente, tudo tornou-se uma coisa só, a personificação da perfeição.

Isso posto (retornaremos ao tema adiante), mudemos de assunto.

Estamos vivendo um momento que é único para todos.

Não que os momentos vividos não sejam únicos, mas a pandemia que se instala nunca foi vivida pela grandiosíssima maioria da população.

Na verdade, não foi vivida por ninguém, afinal, qualquer situação anterior, de magnitude semelhante, foi em um mundo totalmente diferente do atual.

Estou há 40 dias em quarentena.

Achava que gostava de ler.

Até não aguentar mais.

Fiz cursos, MasterClasses, assisti a lives.

Apesar de fazer conferências diariamente, a ansiedade ainda avisa que está presente.

Apesar de ter visto séries, filmes, caminhado dentro de casa, cozinhado, limpado, inventado, virado tudo que é eletrônico de cabeça para baixo e muito mais, estou algumas vezes triste. Algumas vezes ansioso, outras com medo.

E tem dias que acordo feliz.

O que há de errado comigo!!!!?

Vocês conseguem adivinhar?

Absolutamente NADA.

Estamos enfrentando uma situação de calamidade e é totalmente natural do ser humano sentir-se triste, ansioso, talvez desesperado em alguns casos, cauteloso.

É da natureza humana vivenciar emoções diante das adversidades da vida. É natural de existir, ter sentimentos, emoções que afloram, tomam conta e podem nos controlar.

Faz parte.

Então, apesar de não estar tudo bem…

Está tudo bem.

Repita comigo: está tudo bem. Você é um ser humano.

Este é o ponto onde começaremos a conversar sobre aceitação.

Aceitar não significa concordar com um conteúdo desagradável, incompatível com suas metas ou objetivos.

Não significa baixar a cabeça para o que considera incongruente, errado, contra os seus valores ou na contramão do seu propósito.

Aceitar é entender as circunstâncias, a realidade objetiva de forma calibrada para, aí sim, agir da forma mais adequada possível.

Significa não se apegar ao ego, ao material, aos julgamentos e ao preconceito. Você pode estar se perguntando se consegue fazer isso.

O desafio é considerável e muitas vezes precisamos do luto, de passar por um período de negação e de rejeição do que é, pela dor, pela raiva ou pelo medo. Você não está com defeito… é assim mesmo.

Aceitar a realidade, aceitar quem somos e que temos momentos felizes, tristes, ansiosos, com medo e, mais uma vez…

Faz parte.

Então, voltamos para o início, sobre a confusão entre identidade, imagem e mensagem.

O que isso tem a ver com a internet?

Aparentemente nada, mas ao consideramos a saúde mental, tudo.

Confesso que tenho sentido uma certa aversão às redes sociais.

Nelas, vive-se em um mundo de aparências.

Vive-se em um mundo do esteticamente belo, dos sorrisos, da positividade e da abundância.

Nós, como seres humanos, não somos assim.

Não, não somos assim.

Essa é uma estratégia de marketing, de promoção e de prova social.

Quem sou eu para falar o que um digital influencer pode ou não fazer nas redes sociais?

Ninguém… a minha preocupação é com você, a pessoa fora das redes, seja influenciador digital ou não (não seremos todos nós?).

Ser humano igual a mim, que tem suas preocupações, anseios e desafios do dia a dia, que vive em um mundo longe da perfeição.

O ser humano é imperfeito.

Qualquer um.

Onde quer que esteja.

E, confesso, dentro de mim, em um canto profundo do meu ser, eu acredito que relacionar-se com essa suposta realidade da perene sublimação das redes sociais provoca efeitos diversos em nossa mente, seja conscientemente ou inconscientemente.

Eu tenho a plena certeza de que há uma persona de qualquer influenciador digital que tem seus momentos de tristeza. Assim como eu, como você, chora no banho ou ao dormir, diante de uma situação praticamente insustentável de uma dura realidade objetiva opressora, em algum momento do dia.

Pergunto a você… será que em algum canto do seu próprio ser, você não sente eventualmente a mesma coisa?

Já refletiu sobre o termo em si (influenciador digital)? Você se permite influenciar por uma realidade falsa ideal, perfeita e que não existe?

Será que essa ditadura de risos e de uma suposta e aparente felicidade nos afeta?

Eu acho que sim.

Ela nos afasta de nós mesmos e nos aproxima de uma realidade efêmera. Ela configura ideais inalcançáveis de perfeição e… sejamos honestos, se você, assim como eu, busca conhecimento e autoconhecimento, reconhecer felicidade, tristeza, ansiedade, o nosso lado positivo e negro faz parte da compreensão de uma série de interações que vão dentro da gente.

Faz parte de olhar para a imperfeição de dentro, não para a suposta perfeição externa.

Além disso, o processo em si também permite reconhecer esses mesmos processos no próximo. A pessoa diante de você tem as MESMAS questões. Isso gera empatia, gera reconhecimento de emoções.

Depois desse desabafo, permita-me uma sugestão: não importa o que veja nas redes sociais. Olhe para dentro de você. Reconheça-se como ser humano e todo o pacote que vem junto. Em você E nos OUTROS.

Se precisar de ajuda, peça. Sério. Do outro lado, encontrará sinceridade. Se entrar em contato, saiba que provavelmente vou falar coisas que doem (e ouvirei coisas que doerão).

Aceite-se. Abrace essa dor. Entenda-se.

Mas faça isso tomando por base quem é, e não o ideal de perfeição das provas sociais ou do mundo digital, um objetivo inalcançável, intangível e surreal.

 


Atualização em 20200426 1429 -0300GMT: No dia 25 de abril de 2020, o Prof. e Dr. Pedro Calabrez postou um áudio em seu grupo do Telegram, abordando o tema da aparência perfeita das redes sociais. Esse Áudio foi a inspiração para o texto acima.

No mesmo áudio, ele relata que faria na sequência um vídeo sobre o tema. Hoje, dia 26 de abril, ele foi publicado e você pode assisti-lo clicando aqui.


#OGuiaTardio

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5 comentários

  1. Eu tenho escutado mais os bons padres e procurado respostas na Bíblia. Toda essa situação tem sido um chamado Superior para entendermos nossa provisioriedade nesta terra e nossa perenidade nos céus.

  2. Está mesmo tudo bem! <3
    E é ótimo termos um sistema de orientação tão bem integrado, que nos mostra sempre, através das emoções que sentimos, para onde nos estamos a dirigir.
    (Ah! E acordar feliz é um excelente sinal de que o bem-estar nos é predominante, independentemente das circunstâncias.) Está mesmo tudo bem contigo! 🙂

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