Categorias
Ficção

Lucas

Lucas levanta a cabeça enxugando as lágrimas. Ele tem que chorar quietinho porque “homem não chora”, segundo seus tios.

Repara em uma criança de cerca de cinco anos que passa com o pai ao seu lado, jogando em um iPhone.

“Nossa, estão começando cada vez mais cedo”, pensa.

Ele começa a caminhar para a parada de ônibus e a lembrar de quando tinha cinco anos e só pensava em se tornar um adulto, meio sem saber pra quê. Achava que seria melhor do que ser criança…

Talvez por sonhar em ser bombeiro, astronauta ou piloto de avião, mas não correlacionava isso a ser adulto ou ao esforço, por consequência. Não pensava na jornada.

Quando começou a pensar nela, imaginou que desenvolvedor de jogos eletrônicos seria uma saída interessante. É a única coisa que ele entende e gosta. Parte da fuga.

Agora, com 17 anos, sente-se perdido. Sente-se acuado, entre a cruz e a espada. Quer voltar aos cinco anos.

O relacionamento com seus pais tem dias razoáveis e dias péssimos. Ele ama seus pais, mas em qualidade e quantidade, os péssimos se sobressaem.

Sua vida resume-se a lidar com reclamações: limpar o quarto. Estudar. Enem. Sair do videogame. Sair do computador. Não chegar tarde. Não usar o celular na mesa. Tomar banho. Não dar atenção à família. Chegar em casa cedo… Não necessariamente nessa ordem.

Outro pensamento preenche a sua mente… “Será que tornar-se adulto resume-se a atender às expectativas dos nossos pais e às dos outros?”

Lucas tem medo de decepcionar, principalmente seu pai. As cobranças são quase diárias e as observações dele, doem: “vai ficar sem fazer nada até quando”? Nem sei se você tem capacidade para passar”. A barra está muito alta.

As feridas aumentam a cada patada. A distância, idem.

Tudo que Lucas quer é um abraço apertado. “Tudo vai ficar bem. Vai dar tudo certo e eu estou aqui para lhe ajudar”.

“Por que não me aceitam como eu sou? De todas as pessoas no mundo, os meus pais deveriam ser justamente as pessoas a me aceitar e ajudar. Deveriam ser as pessoas a melhor me entender.”

Mas ele acha que isso é impossível de acontecer. Um sonho distante.

É curioso como os pais tentam ser a referência dos filhos não pelo exemplo, mas pela cobrança.

“Não quero ser mais adulto. Quero jogar meu videogame.”

O jogo é quase seu único refúgio. Lá, vive a vida que quiser.

Fuga perfeita. Ele está acima do peso e mal se relaciona com pessoas no mundo real.

Os pais se perguntam porque os filhos estão distantes e antissociais. Não param para considerar a possibilidade desse afastamento ser consequência da vida merda e cheia de conflitos que levam, com excesso de cobranças e uma necessidade (deles e da sociedade) de que os filhos atendam às suas expectativas. Sobram expectativas e falta apoio.

Lucas chega em casa lembrando da criança de cinco anos.

“Por quanto tempo será que ele conseguirá fugir?”

Entra no quarto, fecha a porta e começa a jogar.

 


Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos, ocorrências, nomes, pessoas ou situações da vida cotidiana ou do passado é mera coincidência. A escolha do nome da crônica foi baseada na lista de nomes mais comuns no Brasil, divulgada pelo IBGE.

Categorias
Motivação Pessoal

Ensaio Sobre Propósito

Leia agora “O Guia Tardio”! (clicando aqui)
Assista ao canal no Youtube (clicando aqui)


 

15 de agosto de 2001 foi uma quarta-feira inesquecível.

Recebi a ligação do meu chefe à época, anunciando que a empresa onde eu trabalhava estava fechando as portas e encerrando suas atividades.

Recebi instruções de, no dia 20 de agosto de 2001 pela manhã, uma segunda-feira às 8, permitir a entrada supervisionada dos profissionais para que retirassem seus pertences. São datas que não esquecerei. Dar a notícia a 18 pessoas, indivíduos com quem compartilhei felicidades, tristezas, stress e um sem número de histórias.

Foi quase três anos desempregado, no auge de uma crise hoje esquecida: a bolha das .com. Pela crise que nós passamos hoje, um aprendizado valioso.

As maiores transformações são calçadas na dor. Eu me considerava um bom profissional: palestrante desde os 21 anos, alto conhecimento técnico, trabalhava frequentemente quatorze horas por dia, vivia para o trabalho. Entretanto, era autoritário, ego inflado, irredutível e prepotente.

Foi uma fase muito desafiante. O desespero por não conseguir uma recolocação; a dificuldade no lar, a fome e a sensação de inutilidade e incompetência para mim e diante da minha família. Depressão, síndrome do pânico e incapacidade de sair de casa. A queda não só foi inevitável como, do alto do pedestal em que me colocava, devastadora.

Durante estes quase três anos de reclusão, encontrei uma fuga nos jogos de computador. Sempre me identifiquei com eles, mas terminaram tomando uma proporção gigantesca em minha vida. Passava horas na frente do PC jogando RPGs, MMPORPGs, FPS e afins. Uma fuga quase total da realidade. Um ciclo vicioso que foi quase impossível de quebrar.

Por mais absurdo que possa parecer, jogar dezesseis horas por dia me trouxe um insight fundamental para a minha vida: propósito.

Eu descobri que, até aquele momento, tendo começado a trabalhar aos 17 anos e construído uma carreira profissional de sucesso e em ascensão, eu não tinha um propósito em minha vida; não havia uma razão de ser, um objetivo, uma meta, uma razão para acordar pela manhã.

Descobri isso ao ver o contraste absurdo entre a minha vida virtual e a real. Em uma louca situação de inversão total de valores, eu tinha um propósito no jogo junto aos meus colegas, mas não tinha fora dele.

Isso foi fundamental para sair do fundo do poço: passou a não fazer sentido para mim ser “alguém” dentro de uma comunidade de jogadores e não ser ninguém fora dela. Se eu conseguia ser alguém em um mundo virtual, se havia esforço em ser alguém dentro dessa comunidade, por que não usar esse esforço para ser alguém no mundo real?

A ausência de propósito se traduzia a chegar ao fim do dia; o objetivo máximo era bater uma meta, entregar um projeto, ganhar dinheiro no fim do mês para pagar as contas. Quando fiquei desempregado, o que eu achava que era minha motivação, desapareceu, o que fez com que o fundo do poço ficasse ainda mais profundo.

Pensava: “O jogo da vida é aqui fora. É o que vale! E estou jogando muito mal.”

Ao fugir para um mundo virtual, encontrei uma razão de ser, mesmo que efêmera. Agradeço ao universo que isso tinha acontecido, pois me fez ver que sem um objetivo, não vamos muito longe, principalmente diante das adversidades.

Mais de quinze anos depois, vejo que aquela ligação que me pegou de surpresa em 15 de agosto de 2001 não era, de fato, uma surpresa. Meses antes, os sinais de que as coisas não iam bem estavam presentes e eu me recusei a observá-los. Eu ignorei todos os sinais que passaram na minha frente, impedi-me de enxergar o óbvio porque o status quo era agradável. A zona de conforto me englobava por completo, era quente e serena, acolhedora e reconfortante.

Não ter um propósito ajudou ainda mais na cegueira existencial. Viver sem um objetivo em mente tornou aquela zona de conforto ainda mais atraente: o sucesso parecia se fazer presente!

Ao contrário do que possa parecer, mesmo passar por essas experiências não me ensinou a importância de ter objetivos bem definidos de forma consciente. Eu tive muita sorte: nos últimos 12 anos, a vida me colocou em situações onde eu fui forçado a traçar metas claras. Mas foi apenas recentemente que aprendi como é importante ter objetivos de vida claros e conscientemente planejados.

Posso afirmar com veemência que as dificuldades me ensinaram humildade; ensinaram-me a ser mais paciente, a deixar a arrogância de lado e a ter, como um dos principais objetivos pessoais, desenvolver-me como ser humano. Crescer como ser.

Para finalizar, permitam-me mencionar quatro coisas importantíssimas que a vida também me ensinou:

Até meados dos nossos 20 e poucos anos, somos levados pelo rio da vida e as nossas escolhas e decisões são, na sua maioria, fruto do meio e não dos nossos objetivos. Somos ensinados a correr o mais rápido possível para ter sucesso. A visão é de curto prazo e não relacionamos as nossas pequenas escolhas do dia-a-dia com consequências de longo prazo.

A fast food que comemos com 20 anos é a doença dos 60. A vida sedentária dos 30 anos é a demência dos 80. A arrogância dos 40 anos é o stress e o infarto dos 50. Os pequenos delitos morais dos 25 anos são os escândalos de corrupção dos 70.

Quanto mais eu vivo, mais clara essa questão fica: quaisquer escolhas têm profunda influência em nossas vidas, muito mais do que imaginamos. Quanto maior a distância entre o momento da escolha e o olhar para o passado, maior a influência. Quando aprendemos isso, passamos a tomar muito mais cuidado com tudo que queremos e com o que não queremos. De fato, ter um propósito de vida bem definido muda todo nosso processo de tomada de decisão.

A segunda coisa é que, se parece difícil ter um objetivo claro a seguir, comece por eliminar aquilo que não lhe faz bem ou não lhe agrega em nada. Livre-se de maus hábitos, de pessoas tóxicas, comentários maldosos, piadas de mau gosto e tudo aquilo que o seu bom senso lhe diz ser inadequado mas, algumas vezes, até aceitamos socialmente. Ao eliminar esse peso morto, sobrará muito mais espaço para se dedicar ao que você quer. A sua clareza aumentará e ficará mais fácil descobrir qual o seu real norte. E, já que fizemos uma faxina, aproveite para preencher o espaço com pessoas que lhe fazem bem e que são inspiração para você.

Em terceiro, aquele consenso social de que quando estamos na pior é que vemos quem são nossos verdadeiros amigos, é a pura verdade (confiem em mim, vivi na pele). Quem lidar com você na pior é porque tem algo especial por sua pessoa.

A quarta coisa é “dar”. Refiro-me a doar-se, fazer parte do desenvolvimento humano de outros seres, de praticar a caridade, de ajudar ao próximo. Perceba que uma das mensagens mais poderosas que nossa existência pode enviar ao universo é que estamos prontos para receber, ao termos em abundância para doar ao próximo. É um desafio muito mais complexo e difícil do que parece para a maioria das pessoas. Não me refiro a dar um trocado no sinal: refiro-me a contribuir de forma efetiva, mensurável e duradoura. Envolva-se.

(…)

Faz pouco mais de 15 anos que a maioria dos fatos aqui relatados ocorreram. Sou imensamente grato pelas transformações positivas que eles provocaram e, o mais importante, saber que a evolução continua.

Por fim, se você leu até aqui, sinta-se abraçado. Um abraço fraterno de quem está à disposição para ajudar, caso precises.

 

Se me permitem recomendar alguma leitura…
Poder Sem Limites, Anthony Robbins
O Poder do Agora, Eckhart Tolle
Mindset, Carol Dweck


*post originalmente publicado nas mídias sociais em março de 2017.