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Paulo

Conheci Paulo no colégio, quando tínhamos seis anos. Durante aquele período, fomos melhores amigos. Contudo, com a adolescência, mudamos de colégio e seguimos rumos profissionais ligeiramente diferentes.

Os encontros se tornaram mais escassos, mas de melhor qualidade. Preservávamos o hábito de nos encontrar pelo menos uma vez por mês para falar da vida, da família, das lembranças e dos aprendizados… e confesso que nunca vi ninguém mudar tanto, em tão pouco tempo, como ele.

A última vez que nos vimos esse ano foi em fevereiro, quando completou quarenta e três. Ele me disse que olhou para o passado e viu uma vida sem sentido. Olhou para a frente e viu uma vida com propósito. Um contraste desagradável, mas ao mesmo tempo, um alívio, segundo ele.

A primeira lembrança dele vem dos três anos. Estava no quintal de casa, levando uma bronca do seu pai por ter sujado a parede. Ele me falou diversas vezes sobre como o seu relacionamento com os pais era difícil. Não era comum valorizarem as suas conquistas.

Depois de quase quarenta anos, olhar para a infância trazia lembranças partidas. Ele lembra de não ter muitos amigos; lembra de adoecer com facilidade; lembra de viver com sono até os treze anos.

Seu pai, do interior do sul do país, descendência alemã e polonesa, veio para o nordeste exercer a carreira militar; sua mãe, do interior do norte, veio com a família em busca de oportunidades. Ambos filhos de pais brutos… encontraram-se e casaram-se… por fuga de suas respectivas famílias. Digamos que na casa de Paulo demonstrações de carinho não aconteciam.

Ele terminou crescendo uma pessoa fria, extremamente racional e podemos até afirmar que dissêmica . Seus pais fizeram questão de lhe preparar bem para a dureza da vida, sem dúvida alguma. Eu nunca entendi como consegui me relacionar com ele. Talvez pelo seu humor ácido e irônico, bastante diferente do que estava acostumado. Ria pela diferença e sempre achei interessante essa perspectiva rara de humor tão cedo na vida.

Juntando isso ao fato de que ele foi uma criança e um adolescente isolado, não posso dizer que aprendeu a ser carinhoso, pelo menos não com as suas referências familiares iniciais. O desgaste e o conflito crescentes na adolescência terminaram por afastá-lo da família e a se interessar em construir a sua própria. Fui algumas vezes na casa dele e percebi isso em segunda mão.

Por volta dos dezoito anos, a situação estava insuportável para ele: seus pais tentavam controlar todos os aspectos da sua existência, da roupa que vestia, passando pelos amigos e pela namorada até o curso que deveria fazer na universidade.

Para vocês terem a ideia, quando eu tinha meus quinze anos, bebia desesperadamente como a maioria dos adolescentes. Os seus pais tentaram inúmeras vezes minar a nossa amizade e proibi-lo de se encontrar comigo e com a nossa turma, por me considerar uma péssima influência. Foi mais ou menos aí que decidi não ir mais lá.

A sua introversão, junto com a ausência de diálogo, fizera-o procurar emprego cedo e a aceitar praticamente tudo que era imposto, como o vestibular para física porque… seus pais não acreditavam que ele fosse capaz de passar em ciência da computação (no ano seguinte ele passou para provar que podia).

A intenção de Paulo era sair de casa o mais rápido possível. Ele tinha uma meta: casar aos vinte um, para não ter que pedir autorização aos seus pais. Eu estava no auge da esbórnia e não compreendia como uma pessoa poderia “fugir” de casa por não aguentar os pais. Era uma versão de realidade inconcebível para mim.

Ele cumpriu a meta… e iniciou a busca por sucesso material e conforto para sua nova família. Entrou em um ciclo cego de viver os dias da semana em um trabalho suportável, pagar contas, dormir e se esbaldar nos fins de semana. Jornadas diárias de mais de doze horas de trabalho para compensar tantas coisas… para compensar financeiramente o incompensável.

A própria escolha da profissão foi uma questão de agilidade e praticidade: juntou a habilidade com uma referência familiar e de alguns amigos na época, como eu. Investir nisso parecia o caminho mais rápido de sucesso profissional que poderia desenvolver e, quando você está nesse famigerado ciclo existencial, você perde a perspectiva de muita coisa. Não havia tempo a perder: mergulhou de cabeça. Trabalho e fuga. Mergulhou tão profundamente que se tornou um dos melhores profissionais que conheci.

E os problemas de saúde começaram a se acumular. Foram mais de vinte anos assim.

A carreira profissional ia bem quando perdeu o emprego. Foram três anos de depressão e necessidades. Pela primeira vez, percebeu que felicidade e realização são muito mais do que comprar coisas e farrar. Fui na casa dele algumas vezes, tentar tirá-lo do quarto no pico da depressão.

Não consegui fazer muita coisa, mas consegui pelo menos que ele fosse a uma consulta com um psicólogo. Eu hoje me sinto mal por não ter sido mais próximo dele nessa fase, mas me doía ver um ser humano naquele estado. Embrulhava-me o estômago.

Naquela época, ele culpava seus pais por tudo, como disse sabiamente Renato Russo e… isso é um absurdo.

Somos filhos de vítimas. Somos vítimas de vítimas. Descobrir isso abriu toda uma linha raciocínio à sua frente. Ele vinha repetindo o comportamento dos pais fielmente sem perceber. Racional como o pai, explosivo como a mãe, autônomo e independente quando conseguia, como as exigências da vida lhe fizeram.

Sua cegueira durou dos dezoito aos quarenta, assim como seu comportamento de vítima das circunstâncias, de incompreendido e de coitado. O início e o fim do ciclo existencial automático e perverso que um dia fez também parte da minha vida. Convenhamos, acho que faz parte da de todos, em algum momento.

Voltando um pouco, ele se separou em 2005, quando passamos a nos encontrar com mais frequência. Como ele mudou – perdeu peso, passou a se alimentar direito e a se exercitar; voltou a morar com os pais, deixou de fumar e melhorou consideravelmente de vida. Apesar de ainda viver naquele ciclo existencial na época, passou a dar mais atenção à própria existência.

Mas foi em 2015 que ele começou a se transformar em outra pessoa, quando passou a questionar o seu próprio ciclo existencial.

Lembro de uma de nossas conversas onde ele me disse que se arrependia de muitas coisas… de ter casado cedo, de ter vivido uma vida voltada ao material e talvez até da profissão. Argumentei que isso poderia ser reflexo da crise dos quarenta… ele concordou, apesar de fazer uma ressalva: que tinha passado a enxergar outra pessoa no espelho e, na época, não sabia ainda se isso era bom ou ruim.

Ao longo dos últimos dois anos, ele começou a investir seriamente em seu desenvolvimento como pessoa e em autoconhecimento, algo do qual tinha preconceito. As mudanças foram tão grandes e tão abrangentes que ele passou a me aconselhar, um fato inédito! Foi por causa dele que também comecei a me interessar pelo autoconhecimento, chegando a mudar de emprego e passando a ser uma pessoa bem mais realizada… rompendo o meu próprio ciclo existencial. Até o meu relacionamento com minha esposa e meus três filhos mudou para melhor.

Em fevereiro, durante a nossa conversa, ele me confidenciou estar vivendo a melhor fase de sua vida: verdadeiramente empolgado por ter encontrado seu próprio “eu” e sua missão… ele afirmou: “compadre, eu nasci para ajudar as pessoas. É com isso que me realizo! Demorou, mas me achei!”

(…)

Não trabalho de terno. Meu emprego me dá uma certa liberdade, principalmente no que diz respeito ao meu guarda-roupa.

Abri a porta do armário à procura de algo preto. Algumas camisas de rock do Metallica, uma calça jeans e só. Pensei “Vou assim mesmo”, afinal, era como ele me conhecia: bem à vontade.

Ontem recebi a ligação da sua esposa. Paulo sofreu um acidente de carro ao retornar de uma viagem de negócios. Seu enterro é hoje.

Depois de conviver dois anos com uma nova pessoa, penso em quanta gente ele deixou de ajudar com seu novo propósito. Penso na vida nova que ele mal teve tempo de exercer… apesar de acreditar que, no caso dele, não foi tarde demais. Ele se encontrou a tempo. Ele fez a diferença em sua própria vida e na vida de muita gente antes de partir.

Como ele mesmo me falou várias vezes, tem gente que nunca acorda. Eu acordei graças ao despertar dele mesmo e sou eternamente grato, apesar de não conseguir parar de pensar em quanta gente passa pela vida anestesiado. Fico imaginando a vida que ele poderia ter levado e quantas pessoas mais poderia ter tocado.

Mais uma vez gratidão, Paulo. Vá com Deus.

(…)

E pra você? Ainda dá tempo?


“Paulo” é uma ficção. Qualquer semelhança com fatos, ocorrências, nomes, pessoas ou situações da vida cotidiana ou do passado é mera coincidência. A escolha do nome da crônica foi baseada na lista de nomes mais comuns no Brasil, divulgada pelo IBGE.

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