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O Conflito Ego Versus Propósito

Grandes egos e propósito são mutualmente excludentes.

Não há como ter os dois.

Não há como ser uma pessoa egoica, egoísta e ter um propósito.

Ela pode até ter objetivos em mente e chamar de propósito… mas uma pessoa com um grande ego não consegue servir sem ganhar nada em troca, nem voltar-se a um bem maior.

Quanto maior o ego, mais se afasta do propósito… ao ponto dele ficar tão distante que não mais será percebido. Nesse momento, ele será substituído por algo totalmente compatível com o ego: recursos materiais e conquistas tangíveis. Objetivos imediatistas. Jogo finito.

Suposta realização material, felicidade material e sucesso material, numa tentativa eterna de apaziguar as dores do seu verdadeiro eu, provocadas por vergonhas e vulnerabilidades que você oculta.

Um esforço incapaz… nunca se terá sucesso. Algo que só faz crescer o próprio ego e que nunca terá fim.

Já ouviu falar em empatia? Ela é onde tudo começa, aonde a jornada afastando-se do ego, em direção a um ou mais propósitos, tem origem.

Não estou falando de simpatia. Estou falando de empatia.

É fundamental perceber que a simpatia significa que você até pode ter sentimentos sobre a situação e as pessoas, mas não haverá o seu envolvimento e não há a compreensão do que o outro está sentindo totalmente.

Já a empatia está intimamente ligada a entender os sentimentos do outro sem julgar, a se envolver com a situação e a potencialmente se esforçar para ajudar. A construção da empatia causa uma tendência comportamental de ajuda ao próximo (Eisenberg & Miller, 1987) e essa herança comportamental, na minha opinião, é a cola da sociedade.

  • Simpatia = amenidades, palavras agradáveis e apaziguadoras
  • Empatia = colocar-se no lugar do outro. Envolver-se emocionalmente, compreender a perspectiva da outra parte potencialmente contribuindo, sem julgamentos.

Bebês de até dois anos não têm bem definidos a sua identidade e, até mais ou menos essa idade, eles reagem ao impacto emocional causado a outros bebês (Goleman, 2012). Ou seja, um bebê se identifica com o sentimento demonstrado por outro bebê como se fosse dele próprio.

Melhor, é comprovado que já nascemos com uma bússola moral (Hamlin & Wynn, 2011) e isso tem íntima ligação com a empatia.

Não é de se assustar que a ausência de empatia esteja ligada a distúrbios como sociopatias e psicopatias.

Além disso, a empatia pode levar a um comportamento agressivo (e faz todo sentido). Estou falando da reação de retaliação ou proteção ao notar que alguém por quem temos empatia está sofrendo de alguma forma. Podemos esboçar um comportamento desses  ao nos identificamos com uma vítima de alguma agressão ou sofrimento.

Essa reação está ligada, mais uma vez, ao nosso senso de justiça e moral. É plausível afirmar que a moral e a ética têm um pé na empatia (Hoffman M. , 2001), o que nos leva ao ponto seguinte:

A linha que liga a empatia ao nosso propósito, passando por nossos valores.

Essa linha tem nome: altruísmo.

Talvez a colocação que melhor resuma a empatia seja afirmar que ela surge quando a emoção, o sentimento, a dor ou o sofrimento do outro é compreendido por nós, provocando o surgimento da necessidade de ajudar, nos fazendo agir em nome do próximo.

Isso não está enraizado dentro de nós porque é bonitinho.

É um sistema eficaz de sobrevivência.

Apesar disso, tem sempre alguém que vai dizer “que se dane ajudar os outros”. “Que se dane o altruísmo!”

Nosso corpo tem um mecanismo capaz de nos ligar uns aos outros simplesmente porque isso fez e faz sentido. Ao sermos seres sociais e nos ajudarmos mutualmente conseguimos uma vantagem frente às ameaças. Quanto mais usamos isso, mais nos treinamos a ter compaixão e sermos ainda mais altruístas (Weng, et al., 2013). Rapport e empatia não existem por acaso.

Ao nos ajudarmos mutualmente, nos importarmos uns com os outros e ao sermos seres sociais, conseguimos vencer os mais terríveis desafios ao longo dos milhões de anos.

Do mesmo jeito que o altruísmo surge da empatia, ele passa por nossos valores e chega ao nosso propósito influenciando-os de forma irreversível, como o magnetismo influencia o ponteiro de uma bússola.

Posso correr algum risco em afirmar isso, mas valores e propósito são como que a expressão de uma ordem cerebral mais alta do… altruísmo e da empatia.

Enquanto ambos fazem parte de algo mais irracional que evoluiu conosco (e se mostrou útil e eficaz até hoje, fazendo parte da nossa preservação e manutenção como espécie), com o desenvolvimento de funções cerebrais mais altas (consciência, raciocínio, pensamento e etc.) terminaram representados em valores e propósitos.

Valores positivos são aqueles compatíveis com a moral, a ética e, por consequência, um bom propósito tem a ver com servir aos outros e à sociedade. Quando tudo está alinhado, a mágica ocorre: ficamos ecológicos(*).

Quando a suposta missão está voltada para o eu e para o material, ela se torna egocentrismo e enchemos a nossa existência de incongruências.

Talvez agora deseje reler a primeira frase que compartilhei com você aqui e perceber que…

Ego = voltado para si
Propósito = voltado para o bem maior

Se o que você faz é construir carros elétricos, criar ou vender software, bicicletas ou casas, consertar encanamentos, apagar incêndios, limpar o chão, bater pregos, dar palestras ou cozinhar, como você percebe isso faz toda a diferença.

Pergunte-se: como posso considerar o que eu faço sob uma perspectiva que me permita ver como uma contribuição para um bem maior? Ao realizar essa consideração, consegue reparar no bem, na felicidade e satisfação que traz aos outros ao agir?

Você é palhaço no circo ou contribui diretamente para a felicidade das pessoas? Prescreve remédios ou salva vidas? Passa dietas / treinos ou é responsável pela qualidade de vida e longevidade de tantos? Defende leis ou contribui para uma sociedade mais justa? É funcionário público pela estabilidade ou desempenha um papel fundamental para o bem-estar da população? Faz cálculos estruturais ou auxilia na construção de nossa civilização sustentável? Escreve programas ou contribui para o funcionamento da sociedade moderna? Escreve livros ou ajuda as pessoas de forma inteligente, promovendo o autoconhecimento?

Em todos os casos acima… perceba como essas noções não combinam com o ego coloquial.

Surpreso como podemos encarar o que fazemos como algo para um bem maior?

Já ouvi tantas vezes perguntas em torno de “como lidar com o ego”, “descobrir propósito” e afins.

Dedico um capítulo inteiro do meu livro para falar de ego e outro de propósito.

Mas tem uma coisa simples (porém um desafio gigante) que pode ser feito de imediato e que leva à jornada do ego ao propósito.

Trabalhe a empatia. Seja empático. Importe-se. Envolva-se. Não julgue.

Resgate esse recurso que nasceu com você e que foi escondido por anos e anos de proteções e repressões da vergonha e da vulnerabilidade.

O resto virá.

Leituras recomendadas:

  • A Coragem de Ser Imperfeito, Brené Brown
  • Mais Forte do Que Nunca, Brené Brown
  • Como Entender o Efeito Sombra, Debbie Ford
  • O Ego É Seu Inimigo, Ryan Holiday
  • Um Novo Mundo, Eckhart Tolle

(*)Ecologia é um termo usado na PNL que representa o pertencimento do ser humano em um contexto de troca com a natureza e em harmonia com ambiente que o cerca. Indo além, obtemos a ecologia interna quando estamos alinhados: valores, propósito(s), pensamentos, emoções, sentimentos e ações compatíveis com quem somos.


Esse texto faz parte do livro que publicarei em 2019.

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